Jb Neto/AE
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Parada Gay usa santos e cria polêmica

Ao completar 15 anos, evento reúne pelo menos 4 milhões na Paulista e não foge de temas controversos, como a união homossexual

Paulo Sampaio e Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2011 | 00h00

A 15.ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo reuniu pelo menos 4 milhões de pessoas, segundo os organizadores, na Avenida Paulista. E causou polêmica usando santos em uma campanha pelo uso de preservativos.

Em 170 cartazes distribuídos em postes por todo o trajeto, 12 modelos masculinos, representando ícones como São Sebastião e São João Batista, apareciam seminus ao lado das mensagens: "Nem Santo Te Protege" e "Use Camisinha". "Nossa intenção é mostrar à sociedade que todas as pessoas, seja qual for a religião delas, precisam entrar na luta pela prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST). Aids não tem religião", diz o presidente da Parada, Ideraldo Beltrame.

Ao eleger como tema "Amai-vos Uns Aos Outros", a organização uniu a vontade de conclamar seguidores com a de responder a grupos religiosos - que vêm atacando sistematicamente o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. Na Marcha para Jesus, na quinta, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em favor da união estável homoafetiva foi ferozmente atacada.

Mas nesse ponto nem as opiniões de evangélicos dissidentes, que fundaram igrejas inclusivas e acompanham a Parada, convergem. "Não tinha necessidade de usar pessoas peladas para representar santos. Faz a campanha, mas não envolve as coisas de Deus", acha a pastora lésbica Andréa Gomes, de 36 anos, da Igreja Apostólica Nova Geração. "A campanha foi mais de encontro aos ditames da Igreja Católica. Nós não temos santos", diz o pastor José Alves, da Comunidade Cristã Nova Esperança.

A enfermeira Gilda Mitre, de 38 anos, que assistiu à Parada, entende que a campanha é "ecumênica": "Aquilo é um recado para todas as igrejas", diz.

Para alguns, porém, a mensagem não ficou clara. A advogada aposentada Renata Meirelles, de 73, que se define como "agnóstica", acha que "a Parada deveria ser um movimento político, e não esse carnaval". "Olha para aquilo", diz ela, apontando para um rapaz vestido de Mulher Gato, que se esgueirava com as "garras" na direção dela.

Os 12 modelos que posaram na campanha animaram o trio elétrico 16. Suas imagens vão decorar também as caixas dos 100 mil preservativos que a organização pretende distribuir somente neste ano.

Valsa frustrada. Os trios elétricos iniciaram a parada às 13h30, com a prometida versão remixada de Danúbio Azul. A ideia de levar os participantes a dançar a valsa, em comemoração aos 15 anos do evento, foi frustrada pela superlotação da avenida. /COLABOROU RODRIGO BURGARELLI

REAÇÕES

Gilda Mitre

Enfermeira

"A gente ouve muito mais evangélicos falando abertamente contra a união homoafetiva do que

católicos. Então, esses santos representam Cristo também"

Rodrigo Lane

Ator

"Pelo menos vamos ver se a Igreja acorda, olhando para esses homens maravilhosos (dos cartazes)"

Beatriz Nogueira

Socióloga

"No mundo dos civilizados, a gente ainda está engatinhando. Infelizmente, temos de criar polêmica para defender o óbvio"

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