Márcio Fernandes/AE
Márcio Fernandes/AE

Para vencer de novo, Mocidade Alegre se espelha em fundador

Campeã usará enredo sobre os espelhos para homenagear presidente de honra morto em 2009

Cristiane Bomfim, do Jornal da Tarde,

02 Fevereiro 2010 | 18h38

SÃO PAULO - "Reflete a sua memória. Do criador da morada do samba. Tá vendo tudo acontecer. Tá no meio de bambas. Feliz. Tá tirando uma onda." Ainda na concentração, antes de atravessar a faixa amarela do sambódromo, a Mocidade Alegre vai cantarolar esses versos num ritmo de oração em homenagem a Juarez Cruz, o principal fundador da escola. Ele morreu em fevereiro do ano passado vítima de uma parada cardíaca, uma semana após a agremiação ter se tornado a campeã de 2009.

 

O samba-homenagem foi composto no início de janeiro por seu Beto. Amigo de longa data, ele participou da fundação da escola em 1967 e nunca mais saiu de perto da Mocidade, nem do seu Juarez. "A gente sente saudade porque ele vivia pela escola. A Mocidade tem muito dele. Tem a cara dele", diz o senhor de 69 anos, olhos brilhantes e fala ligeira que tem nome de batismo Alberto Alves dos Santos. Em mais de 40 anos de amizade, os dois nunca brigaram. "Éramos parecidos. Fazemos aniversário no mesmo dia", lembra. Para os mais distraídos, pode não parecer, mas o enredo deste ano que fala sobre espelho também é uma forma que a escola encontrou para agradecer o homem que "sempre carregou e defendeu as cores do pavilhão - vermelho e verde", afirma a presidente e sobrinha de Juarez, Solange Cruz Bichara Rezende.

 

Da criação do universo ao sonho eterno do criador. Eu sou espelho e me espelho em quem me criou é um tema abstrato, como define Solange. "A escola gosta destes temas que podem ser interpretados de várias formas", diz. A primeira delas é a mais explícita: o enredo conta a história do espelho, sua relação com a vaidade, a luxúria e as superstições. Também pode ser entendido de uma maneira, digamos, mais espiritual. A criação do universo por Deus e o homem como sua imagem e semelhança.

 

Para quem conhece de perto a Mocidade todas essas possibilidades terminam no fundador da escola. "Deus é o criador do Universo. O seu Juarez é o criador da Mocidade. E é nele que nos espelhamos aqui na escola", se emociona Solange. Ela conta que seu primeiro ano de gestão não foi fácil. "Ele era muito crítico. Mas hoje entendo tudo isso, ele me fez ser uma pessoa mais forte e me ensinou tudo o que sabia. Não tem como esquecer. É o meu espelho." Em 2004, no primeiro ano de gestão de Solange, a escola acabou com o jejum de 23 anos e foi campeã.

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