Para unir a nova e a velha cidade de Redenção

Município paulista refeito a 3 km de seu centro antigo, após obra da Usina de Paraibuna, tenta restaurar espaços históricos e até encurtar distâncias

EDISON VEIGA , ENVIADO ESPECIAL , REDENÇÃO DA SERRA (SP), O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2013 | 02h06

Contando, assim, ninguém acredita. Parece cena de filme, de novela, enredo de livro. Mas na memória dos mais antigos, há duas cidadezinhas chamadas Redenção da Serra, no Vale do Paraíba, pertinho de Taubaté: a "velha" e a "nova". Da primeira, fundada em 1877, pouquíssimo restou, além das lembranças. Uma igrejinha, erguida em 1882, e o prédio construído para ser prefeitura, cartório e câmara, mais ou menos da mesma época.

No fim dos anos 1960, um boato se espalhou: "o Rio Paraitinga vai subir, vai alagar tudo, vamos ter de nos mudar". Ninguém acreditou muito, a vida continuou. Mas, no início da década seguinte, o Estado construiu a Usina Hidrelétrica de Paraibuna, represando os Rios Paraibuna e Paraitinga. E a água começou a subir mesmo.

Foi negociada uma indenização. A colina uns 3 km adiante da cidade foi loteada, os moradores, por sorteio, tiveram direito cada um a um quinhão. "Mas teve gente que só acreditou quando a água já estava para bater nos joelhos", lembra o contabilista Benedito Manoel de Morais, de 57 anos, filho da terra e hoje prefeito.

O Estado autorizou que os moradores demolissem as antigas casas para aproveitar o material. Por isso, nada além de velhas fotografias sobrou. E decidiu-se erguer uma muralha para que a água não invadisse a antiga praça com a igrejinha e o prédio da prefeitura. "Mas as construções passaram a não ter mais uso", conta Vera Lucia Renó dos Santos, de 48 anos, funcionária pública destacada pela prefeitura para zelar pelo espaço. Missa não tem há tempos.

Liberdade. A nova vida começou totalmente desconectada desse passado. "Para ser sincero, não sou saudosista. Quero viver bem presente e futuro", comenta o servente de escola aposentado Lourenço Rabelo, de 80 anos, uma vida toda dividida nas "duas" cidades. "Eu era feliz do lado de lá, depois me tornei feliz aqui também."

Mas as histórias não podem ser esquecidas. Redenção da Serra foi a primeiro município paulista a libertar seus escravos, em 10 de fevereiro de 1888. E esse fato teve como palco a antiga praça, aquela hoje cercada por uma muralha. Tanto que ali havia, na cidade "velha", uma estátua em alusão à conquista histórica - e o marco acabou transferido para a cidade "nova". "É fato que a represa tirou um pouco da nossa identidade", afirma a secretária de Cultura e Turismo do município, Daniela Cassal. "Por isso, busco ações que resgatem a nossa memória."

Problemas que surgiram com o passar dos anos exigem que medidas sejam tomadas logo. As terras em volta da antiga igrejinha acabaram ocupadas irregularmente - hoje são cerca de 30 famílias ali. Com o passar do tempo, as duas construções históricas também começam a sentir os efeitos das intempéries - e um restauro é urgente.

Com olhar para esse passado, um futuro começou a ser reescrito no ano passado. O arquiteto Samuel Kruchin, especialista em obras de restauração, foi procurado por um representante da prefeitura de Redenção no ano passado. "Ele não sabia, mas veja que coincidência: nos anos 1970, a serviço do órgão de proteção ao patrimônio, eu, um jovem arquiteto, fui chamado para analisar as construções antigas aqui de Redenção. Agora, tenho em mãos a missão de reintegrar a cidade 'velha' à 'nova'", afirma ele.

Os estudos avançaram e um projeto está sendo elaborado - a execução, estimada em R$ 15 milhões, deve ser bancada pela iniciativa privada. Kruchin pretende restaurar as edificações principais, recompor a pracinha tal e qual era antigamente - até trazendo de volta a estátua em alusão à abolição dos escravos - e retirar a muralha que criou uma barreira visual ao centro antigo de Redenção. Com isso, aliás, ele encurta a distância entre o núcleo original e a cidade atual - dos 3 km atuais para menos de 1 km. "Proponho a construção de um dique que não permitirá mais que a água chegue a alagar a cidade 'velha'. Esse dique também funcionará como passagem para as pessoas circularem de um ponto a outro", explica o arquiteto. Se tudo der certo, as obras começam em quatro meses.

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