Para servir a tropa, 'calças curtas' arrecadavam até cigarros

Grupo de garotos e garotas com idades entre 10 e 17 anos que não podiam à frente de batalha dava apoio aos soldados

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2016 | 01h30

SOROCABA - Aos 94 anos, o barbeiro Francisco Rossi Filho, o 'Chiquinho', percorre a pé, quatro vezes ao dia, as quadras que separam sua casa da tradicional barbearia que possui em São Carlos, interior de São Paulo. As mãos que seguram com firmeza a tesoura estiveram a serviço dos paulistas na Revolução de 32. 'Chiquinho' fez parte do Batalhão de Escoteiros de São Carlos - um grupo de garotos e garotas com idades entre 10 e 17 anos que, sem poder ir à frente de batalha, dava apoio às tropas. “Éramos chamados de calças curtas por causa do nosso traje, mas a gente se sentia tão importante como os soldados”, relembra.

A pé ou de bicicleta, os escoteiros atuavam como estafetas e assumiam serviços de apoio a médicos e enfermeiros no atendimento aos feridos. Também supriam os soldados de alimentos, água, café e cigarros, como conta Francisco. “A gente entregava correspondência, levava comida, pegava roupa dos soldados para lavar, arrecadava dinheiro, cigarros, fazia um pouco de tudo, até catar ferro para fazer armas.”

Ele lembra que os colegas mais velhos queriam ir para a frente de batalha, mas o juiz da época baixou uma portaria proibindo que menores de 18 anos empunhassem armas. “Eu corria o dia todo, do quartel para o fórum, dali à estação de trem, ao hospital, onde fosse preciso. Saía de casa às 7 horas da manhã e voltava às dez da noite. Mas fazia com vontade, achando que São Paulo podia ganhar a guerra. Para nós, era uma guerra, com tiros, bombas aviões.”

Ele conta que, quando foi anunciado o fim da revolução, mesmo com a derrota de São Paulo, houve festa na cidade. “O ruim foi que três soldados nossos morreram, fui no enterro deles, no cemitério. Depois os corpos foram trasladados para a Praça dos Voluntários.” 'Chiquinho', que é pai de quatro filhos - dois casais - e mora com uma das filhas, guarda com orgulho o diploma de diploma de constitucionalista. Incansável, abre o salão de barbeiro às 7 da manhã e trabalha até 17 horas, tendo entre a clientela professores da USP e da UfsCar. Nas horas vagas, faz origami.

Filho de imigrantes italianos, o escoteiro Pedro Antonio Monteglione tinha 10 ou 11 anos quando estourou a revolução. Ele se lembra que sua principal missão era recolher buchas vegetais que seriam usadas pelos soldados para filtrar a água que iriam beber nas trincheiras. “Eles bebiam água de rio ou lagoa que nem sempre era limpa.”

Com 93 anos, Monteglione também se recorda de arrecadar cigarros para os combatentes. “Meu pai e minha mãe vieram da Itália para trabalhar nas lavouras de café, mas se afeiçoaram a esta terra e consideravam São Paulo um Estado abençoado. Quando perdemos a guerra, eles choraram, inclusive meu pai que, na Itália, era um marinheiro. Ele morreu cedo e minha mãe me criou lavando roupa para fora.”

O empresário Pedro Alfredo Maffei, diretor superintendente das indústrias Giometti, em São Carlos, era uma criança quando participou da revolução. Aos 92 anos, ele ainda dirige a empresa com os irmãos. No início do ano, teve uma fratura no fêmur e ficou adoentado. Quando foi procurado pela reportagem, ele não estava bem de saúde.

Outro escoteiro, Alfredo Pires Filho, tem 95 anos e até 2012 presidia o Exército Constitucionalista, força honorária, criada pela Polícia Militar do Estado de São Paulo. Aos 11 anos, com a roupa tradicional na cor caqui, calça curta, meias três quartos e cinto de couro, o escoteiro levava as correspondências trocadas entre as unidades militares dos revolucionários na capital. Mais tarde ele se tornou piloto, instrutor de voos e executivo em multinacionais.

 

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