Thiago Liberatore/Fotorepórter/AE
Thiago Liberatore/Fotorepórter/AE

Para quem voltava para casa, medo e prejuízos

Alguns levaram horas para chegar, outros tiveram de encontrar alternativas como dormir em hotéis próximos ao trabalho. Na manhã de ontem, o conselho da Defesa Civil: não sair ou ficar a 50 km de distância de São Paulo

Flávia Tavares, Paulo Saldaña, Nataly Costa, Renato Machado e Solange Spigliatti, O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2011 | 00h00

É comum identificar os efeitos não fatais dos temporais como "transtorno". Mas, para os paulistanos que se depararam na noite de segunda-feira e na manhã de ontem com situações de risco e prejuízo nas ruas de São Paulo, o termo parece insuficiente.

Sozinha na enchente, Adrielle Campos da Silva, de 21 anos, passou a noite em um hotel próximo da Estação Tucuruvi. A analista de redes sociais pegou o metrô na Santa Cecília, às 22h, e chegou à zona norte duas horas depois. Seu irmão não conseguiu buscá-la por conta do transbordamento de córregos da região.

Ela ligou para uma empresa de táxi, mas foi informada de que eles não atenderiam em áreas alagadas. "Também tentei ônibus e lotação para o Tremembé, onde moro, sem sucesso." Adrielle pagou R$ 38 para pernoitar no Hotel Salinas. Chegou em casa às 8h. "Fiquei nervosa, mas recebi apoio do meu chefe no celular."

Foi também pelo celular que o estudante de Cinema Michael Oliveira, de 26 anos, tentou registrar a cena que viu da janela do ônibus onde esteve ilhado das 22h à meia-noite, na Bela Vista. Duas mulheres tentavam atravessar a correnteza com um carrinho de bebê, ocupado, coberto com um saco de lixo. Quatro lixeiros ajudaram na travessia. Uma das mulheres escorregou e quase foi engolida pela lama. "A força da água era tanta que eles demoraram uns dez minutos para cruzar a rua", lembra. Apesar do susto, Michael conseguiu dormir em sua cama.

Kátia Zanardo, de 35 anos, não teve a mesma sorte. Foram 11 horas e meia de Atibaia (SP) ao Brooklin - das 21h30 de segunda às 9h de ontem. Na Fernão Dias, ela dormiu em um posto de gasolina por algumas horas. Assustada, a jornalista aderiu a um comboio de carros que tentavam caminhos alternativos. "Todos deram errado. Deu medo, mas deu mais raiva. Como essa cidade quer receber a Copa?", indigna-se.

A revolta com os danos da chuva e o choro da filha Beatriz, de 9 anos, motivaram Raquel Araújo Pinto, do bairro do Limão, a pedir ao cunhado Izaque para que, além de ajudar a salvar alguns móveis com seu caminhão baú, ele tirasse fotos dos estragos. "Quero pedir isenção de impostos." Esta foi a terceira cheia que Raquel enfrentou em cinco anos. Já era manhã e ela ainda tentava secar o sofá e limpar o barro. "Trabalho com acabamento gráfico, por conta. Hoje, não trabalhei. Mais um prejuízo."

Também já era manhã, por volta das 8h30, e ninguém entrava ou saía da central de operações do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Metade dos funcionários estava ilhada lá dentro, outra metade na esquina da Avenida Rudge com a Rua Jaraguá, sem ter como atravessar.

A Marginal do Tietê foi o símbolo máximo do caos de ontem. No início do dia, o coordenador-geral da Defesa Civil Municipal, Jair Paca, orientou os motoristas a se manterem a um raio de 50 km da capital, já que as rodovias que desembocam ali pararam. "Aconselhei que as pessoas parassem para um café."

Foi só perto das 10h que o trânsito na Marginal começou a fluir. O analista de produção Aridson Araujo, de 49 anos, passou três horas no ônibus fretado, de São José dos Campos até a Marginal. Desistiu de chegar ao trabalho, mas ficou 1h30 à espera de um coletivo que o levasse de volta.

Pérola Negra. O temporal alagou o galpão da escola de samba Pérola Negra, em Vila Leopoldina, zona oeste. Uma ala inteira, que já estava pronta, e uma alegoria foram danificadas. Segundo a escola, as peças serão refeitas a tempo para o carnaval. A Pérola ainda não contabilizou os estragos.

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