Para obter patrocínio, até cavalo vira enredo

Dez das 12 escolas de elite do Rio vão ter apoio financeiro de empresas neste ano

ANTONIO PITA / RIO , O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2013 | 02h03

Voltadas para um espetáculo cada vez mais grandioso, as escolas de samba cariocas deixaram de lado homenagens, críticas e a identidade com suas comunidades para apostar em enredos inusitados que atraem patrocinadores. Neste carnaval, dez das12 escolas do Grupo Especial do Rio buscaram parcerias e financiamento para os desfiles. Segundo carnavalescos, os valores do patrocínio ficam entre R$ 3 milhões e R$ 7 milhões.

A opção fez com que temas genuinamente cariocas fossem exportados para escolas de São Paulo. É o caso das homenagens aos sambistas João Nogueira e Beth Carvalho, incorporados pelas paulistanas Águias de Ouro e Acadêmicos do Tatuapé. Outros temas, como o centenário de Jamelão, ícone da Mangueira, foram utilizados por escolas de acesso.

No grupo especial, os desfiles mostrarão uma raça de cavalo, histórias da Alemanha e Coreia do Sul, produtos agrícolas, novelas e um festival de música. O resultado, segundo críticos, é a pior safra de sambas-enredo dos últimos 20 anos.

Propaganda. "Estamos na era do jingle enredo", ironiza o pesquisador Luiz Antonio Dimas, que pesquisou mais de 1.300 sambas históricos do carnaval carioca no livro Samba de Enredo, História e Arte. "Não tem mais samba épico para contar uma história. O que se tem é um slogan colocado no samba para vender a marca. "

Pelo regulamento da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), que organiza os desfiles, porém, as agremiações são proibidas de expor marcas de patrocinadores nos desfiles. A saída encontrada pelas escolas foi fazer referências veladas às marcas. Em alguns casos, as expressões usadas são exigências das empresas, previstas em contrato.

Com enredo sobre a fama, o Salgueiro fez um malabarismo criativo para apresentar os 20 anos da revista Caras na Sapucaí. A escola incluiu no refrão do samba os versos "Tá na capa da revista, (...)/ E na cara dessa gente". Mas a presidente do Salgueiro, Regina Celi, não vê relação. "Você tem de ver como a palavra é usada. Caras tem muitas, a minha, a sua", justificou.

Para a ex-diretora de escola Rachel Valença, as agremiações se tornaram reféns de um modelo de mecenato "predatório". "O patrocinador poderia apoiar a escola como instituição cultural e preservar o desfile, mas nunca virar enredo", avalia. "Hoje, o samba se enfraquece, perde a sua verdade, suas matrizes e sua força cultural."

Financiamento. A justificativa das escolas para a busca por patrocinadores é o alto custo do desfile. Os efeitos e alegorias, que encantam público e jurados, surgem como as principais causas do encarecimento. Campeã no ano passado, a Unidos da Tijuca estima gastar entre R$ 10 milhões e R$ 12 milhões para desenvolver um desfile sobre a Alemanha. Segundo o presidente, Fernando Horta, a escola "nunca teve patrocínio de samba, apenas parcerias financeiras, que independem dos temas escolhidos".

A procura pelo apoio financeiro das empresas se intensificou à medida que as doações de bicheiros diminuíram. Os chamados patronos das agremiações foram os responsáveis, a partir da década de 1960, pelo caráter luxuoso dos desfiles. "Como nos últimos anos a grana deles parou, as escolas não conseguem sustentar esse desfile monumental", avalia Luiz Antonio Dimas. "Assim, os patrocinadores têm um merchandising fabuloso, com exposição de 80 minutos na TV."

À frente do desfile da Beija-Flor sobre uma raça de cavalos, o carnavalesco Laíla vê o patrocínio como garantia de um desfile competitivo. "As pessoas não se lembram da época em que passávamos livro de ouro entre os associados", comenta.

Ele enumera gastos com a manutenção da escola e folha de pagamento de carnavalescos, que chegam a receber R$ 45 mil mensais. "Tem de haver um equilíbrio entre o espetáculo visual e o desfile do samba tradicional, mas sem esquecer que a escola é uma empresa."

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