TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO - 22/03/2022
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Para o PCC, Cracolândia teria se tornado um mau negócio; leia análise

Hoje, a facção está presente em 22 países de três continentes e lucra mais de R$ 1,5 bilhão por ano

Marcelo Godoy*, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2022 | 20h39

O que é a renda da venda de drogas na Cracolândia comparada com os problemas que a manutenção do maior mercado da droga ao céu aberto do País causava ao Primeiro Comando da Capital (PCC)? Para quatro integrantes da cúpula da Polícia Civil e um promotor do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) a resposta a essa pergunta pode estar por trás da decisão da facção criminosa de encerrar – por enquanto – suas atividades na região. Desde sua criação no Anexo da Casa de Custodia de Taubaté, em 1993, o PCC cresceu continuamente, dominou presídios e depois a criminalidade no Estado. Hoje, está presente em 22 países de três continentes e lucra mais de R$ 1,5 bilhão por ano com o tráfico internacional de drogas, mantendo laços com a ’Ndragheta, a máfia da Calábria (Itália) e com o Cartel de Sinaloa (México).

“Hoje o PCC é uma organização de tipo mafioso”, afirmou o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco. Isso porque ele exerce controle de território e social por meio do medo da violência. Busca o monopólio da atividade criminosa e domina mecanismos de lavagem de dinheiro. É a organização criminosa que mais cresce no mundo por meio de seu cartel, o Narcosul.

Símbolo dessa nova fase, em outubro de 2021, os promotores do Gaeco detectaram que o PCC determinou a suspensão da cebola, a cobrança de contribuição mensal dos integrantes da facção que existia desde a fundação do grupo. Abria assim mão de uma renda tradicional – bandidos em liberdade pagavam R$ 1 mil, dinheiro que financiava ações de populismo carcerário, como a distribuição de cestas básicas e o fretamento de ônibus na capital para levar parentes de detentos aos presídios do oeste do Estado.

Com toda essa estrutura, por que manter o tráfico de drogas na Cracolândia? Ainda mais depois que, desde maio de 2021, a polícia instalara câmeras de vídeo escondidas na região para identificar traficantes em meio aos usuários maltrapilhos. “Prendemos 64 deles. Cada vez que aparecia alguém melhor vestido em meio ao fluxo, passamos a identificá-lo e capturá-lo”, afirmou o diretor do Departamento de Narcóticos (Denarc), Genésio Léo Júnior. As prisões se multiplicavam e o lucro diminuía. Para quem está ganhando com o tráfico internacional, a Cracolândia teria se tornado um mau negócio. A polícia só não sabe até quando. 

*REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADÃO

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