Para mudar, é preciso começar hoje

Dos 12 pontos de medição da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo nos Rios Tietê e Pinheiros, só dois apontaram situação boa de qualidade da água em 2012

O Estado de S. Paulo

24 de janeiro de 2014 | 23h50

É difícil pensar em uma utopia com rios limpos e áreas verdes para a cidade de São Paulo com a poluição atual - dos 12 pontos de medição da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) nos Rios Tietê e Pinheiros, só dois (ambos em Mogi das Cruzes) apontaram situação boa de qualidade da água em 2012. O resto ficou ruim ou péssima. "Gosto de imaginar o Rio Tietê como a metáfora da própria dinâmica da cidade. Enquanto ele continuar sujo, a cidade vai continuar desigual", diz o ativista cultural Livio Tragtenberg. "Gosto dessa metáfora: limpando os rios é como se a cidade fosse lavada, mas acho isso muito improvável", diz. "Daqui a 50 anos, vamos conversar sobre a mesma questão. O rio vai estar sujo. Isso porque, por aqui se ganha muito em não se fazer coisas, mais do que em fazer. A inércia é muito mais lucrativa do que o movimento."

Mas, mesmo quem é mais otimista ressalta que o trabalho de melhora deve começar hoje, e audaciosamente. "Até agora, as legislações vêm sendo feitas pressionadas pelo capital imobiliário", alerta o arquiteto Decio Tozzi. "É preciso ter um equilíbrio, uma troca."

Tozzi destaca que a evolução urbana está ocorrendo em termos numéricos (aumento de população, número de empreendimentos), mas não em termos qualitativos. "É um quadro impraticável em uma sociedade que se diz civilizada e detém um certo conhecimento."

A principal preocupação é a situação ambiental da cidade de São Paulo. O arquiteto Lucio Gomes Machado cita como um dos principais pontos o assoreamento e a poluição da Represa do Guarapiranga, na zona sul, importante fonte de abastecimento em uma cidade com água cada vez mais rara - relatório de 2013 da Cetesb aponta que o Reservatório do Guarapiranga tem sedimentos muito tóxicos e quantidade considerada péssima de coliformes fecais. "Em 2054 talvez ela não exista mais. Mas temos de dar um jeito de existir, porque é fundamental." Para ele, o fornecimento de água é o principal problema das próximas décadas para a Grande São Paulo.

Já Tozzi destaca o aumento das ilhas de calor, causadas pela impermeabilização do concreto e pela redução das áreas verdes. "A flora some. Só asfalto e concreto. E a fauna, essa é triste. Não há mais passarinhos. Só há insetos, ácaros, aranhas e escorpiões", afirma Tozzi. "O processo de província a metrópole foi tão rápido nesses últimos 50 anos - e aumentado nos últimos 30 - que o centro expandido já é uma grande ilha de calor."

Tozzi diz que o conhecimento para reverter essa tendência existe há tempos. "Houve distração dos órgãos públicos? Não. Houve aceitação da pressão econômica", aponta, afirmando que, se não houver mudança de posicionamento, a ilha de calor vai aumentar. "Em 2030, estará muito pior. A desertificação da cidade estará em grau mais elevado. E os municípios da Região Metropolitana de São Paulo acompanham esse processo. Vai se somar uma metrópole desértica."

Mas ele diz que ainda não é tarde: "É hora de mudar isso".

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