Para MP, troca no Denarc foi prejudicial

Transferência de policiais acusados de achaque 'não foi coincidência', diz Gaeco

Ricardo Brandt / Campinas, Luciano Bottini Filho, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2013 | 02h11

A transferência de cinco policiais civis acusados de extorquir dinheiro de traficantes de Campinas, no interior paulista, pode ter servido para acobertar as ações do grupo, segundo o Ministério Público. Relatório do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) afirma que a realocação dos suspeitos em maio, após as irregularidades serem descobertas, "obviamente não se tratou de coincidência".

O documento entregue à Justiça, que embasou o pedido de prisão de 13 policiais do Departamento Estadual de Combate ao Narcotráfico (Denarc), aponta que no dia 24 de maio foram transferidos Jandre Gomes Lopes de Souza, Silvio Cesar de Carvalho Videira, Daniel Dreyer Bazzan, Leonel Rodrigues dos Santos e Rodrigo de Longhi Gomes de Mello. Videira, Bazzan e Santos estão foragidos.

Os quatro primeiros policiais foram transferidos pela Delegacia Geral para o Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap) e o último para o Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic). Os cinco eram os principais investigados por sequestro, tortura e achaque de traficantes liderados por Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho.

"Assim como já havia acontecido com a diretoria do Denarc, de alguma maneira a Delegacia Geral de Polícia também foi induzida em erro, na medida em que determinou a transferência de quase todos os policiais que estão envolvidos com os fatos", escrevem os promotores no relatório.

Secretaria. A Secretaria da Segurança Pública informou, em nota, que as transferências foram determinadas já em abril, depois que os promotores pediram informações sobre os policiais. "Elas não tiveram o objetivo de inviabilizar ou atrapalhar as apurações do Gaeco. Pelo contrário, elas visaram a garantir que os policiais (...) não interferissem nas investigações nem permanecessem em condições de praticar quaisquer irregularidades." Segundo a nota, as "transferências foram comunicadas à Corregedoria da Polícia Civil, que instaurou procedimento de apuração."

Ao Estado, o diretor do Denarc, Marco Antônio de Paula Santos, afirmou na sexta-feira que os policiais "envolvidos nas acusações mais sérias" foram desligados por ele. "Fui eu que decidi. Quando começaram (relatos de) que eles teriam feito coisa errada em Campinas."

Para os promotores, "policiais e autoridades do Denarc, cientes de que os fatos haviam sido descobertos pelo Ministério Público, induziram em erro a Diretoria do Departamento e a Delegacia Geral de Polícia, criando situações e justificativas para afastar os policiais investigados da repartição onde os crimes foram praticados".

Investigação. Os policiais trabalhavam na 3.ª Delegacia da Divisão de Apoio do Denarc, sem competência para atuar fora da capital, sob o comando do delegado Fábio do Amaral Alcântara, preso na segunda-feira.

Enquanto investigavam o esquema de tráfico envolvendo Andinho e um de seus principais, comparsas, o traficante Agnaldo Aparecido da Silva Simão, o Codorna - ambos integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) - os promotores flagraram os policiais do Denarc tentando extorquir R$ 300 mil para que eles pudessem continuar a vender drogas em Campinas. O esquema foi monitorado de janeiro a maio deste ano, nas escutas autorizadas pela Justiça dos telefones dos criminosos, e depois confirmada por eles em depoimento.

O relatório do Gaeco mostra que antes de ser preso pela PM, no dia 5 de maio, Codorna, a família e amigos foram sequestrados pelos policiais do Denarc para que pagasse a propina. O pagamento de R$ 200 mil teria sido feito no dia 12 de maio, em um posto de Valinhos.

Para o Gaeco, as investigações tornaram-se conhecidas dos policiais do Denarc a partir da prisão de Codorna. "Indiscutivelmente tal situação já era do conhecimento de autoridades policiais" do departamento.

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