Para Instituto Royal, ativistas é que maltrataram os animais

Coordenadores da unidade afirmam que invasão causou danos aos bichos; segundo eles, pesquisas de dez anos foram perdidas

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2013 | 23h27

Corrigido 25/10, às 18h54

"Os ativistas disseram que retiraram os animais do Instituto Royal por causa de supostos maus-tratos, mas quem cometeu maus-tratos com os animais foram eles." Essa foi a reação dos coordenadores do instituto nesta quinta-feira, dia 24, no primeiro dia em que resolveram vir a público e atender aos pedidos de entrevista desde a invasão, há uma semana, que culminou com a retirada de 178 cães da raça beagle.

A declaração é da bióloga Silvia Ortiz, gerente geral do Royal. Ela e o diretor científico do Royal, João Antônio Pegas Henriques, concederam ontem uma entrevista ao Estado da cobertura de um prédio comercial luxuoso com vistas para todo o Pacaembu, onde funciona a assessoria de imprensa que contrataram para gerenciar a crise.

Segundo Silvia, se algo causou estresse aos animais foi a "arruaça" promovida durante a invasão. "Por exemplo, a quantidade de fezes e de urina que os ativistas relataram lá dentro. Imagine que todos os animais estavam dormindo numa condição de temperatura, iluminação e umidade controladas. De repente, entram 150 pessoas fazendo aquela arruaça que todo mundo viu, aos gritos de 'pega aqui o cachorro, pega lá, aqui mais um sendo salvo'. É claro que eles urinaram e defecaram. Os animais ficaram estressados", disse.

"Eles mostram animais tremendo na TV, mas eles não estão acostumados com isso. Eles nem sequer estão acostumados a ir para o colo. Não são pets. Os ativistas estão dizendo que agora eles estão em casa, em uma caminha quente, com uma comidinha. Mas eles não estão acostumados a comer comidinha! Eles comem ração. Vai dar diarreia nesses animais. Muitos podem não estar nem conseguindo comer."

Silvia e Henriques negaram repetidas vezes que houvesse qualquer tipo de maus-tratos ou que fossem feitos no laboratório testes de cosméticos nos animais. "Nós testamos cosméticos, mas só em células, in vitro. Nunca em animais. E nem é lá, mas na unidade de Porto Alegre", explica Henriques.

Sobre a alegação feita pela apresentadora Luisa Mell, que estava na invasão, de que havia ao menos um animal com a pata quebrada e outros com cicatrizes e tumores, Silvia rebateu. "A pessoa fala que a cadela estava com calombos, tumor, gorda. Ela estava prenha! Ela não sabe diferenciar ao apalpar e sentir que é um feto. Não tem cicatriz nenhuma. Mostraram um animal sem olho dizendo que era do Royal e depois desmentiram. Também não tem pata quebrada, a não ser que algum animal tenha sido quebrado na retirada", diz.

Eles disseram que ainda não conseguem estimar os prejuízos financeiros e científicos, mas que "não deve ser pouca coisa". Segundo Henriques, microscópios avaliados entre R$ 80 mil e R$ 100 mil foram quebrados e equipamentos de laboratório, computadores e materiais dos estudos foram levados.

"Além de perdermos as pesquisas que estavam em andamento para drogas anticâncer, diabete, hipertensão, epilepsia, de antibióticos e anti-inflamatórios, ainda perdemos toda a pesquisa para a padronização genética dos cães usados. Foram dez anos para que eles chegassem aos níveis de padrão internacional para testes de fármacos", afirma.

Segundo ele, cerca de 8 drogas estavam sendo testadas ou aguardavam para iniciar os exames, e testes anteriores realizados no laboratório já levaram à aprovação de uma droga contra malária da Fiocruz e de mais outros três medicamentos que estão no mercado. Ele não quis informar, no entanto, quais são os produtos nem de quais farmacêuticas, alegando contratos de confidencialidade.

Apesar de cães serem usados em outros laboratórios do Brasil, em especial em universidades, que também testam em macacos, somente o Royal tem o reconhecimento de Boas Práticas de Laboratório (BLP), o que o torna o único testando fármacos de empresas no Brasil. Eles também são os únicos criadores de beagles voltados para pesquisa. Segundo Sílvia, cada filhote custa em torno de R$ 2.400. Fêmeas usadas para procriação são mais caras.

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Veja a seguir outros trechos da entrevista

Como foi o processo de conversa com os ativistas antes da invasão?

Silvia - Eu os recebi pela primeira vez no dia 12 de outubro, quando se acorrentaram na frente do Royal. Mas desde o dia 22 de setembro eles estavam protestando. Sabíamos que eles estavam indo para lá, então nos precavemos com segurança patrimonial e chamamos a Polícia Militar. Os manifestantes questionaram por que a PM estava ali se é uma propriedade particular. Mas somos uma Oscip público-privada, que tem patrimônio que foi comprado com recursos federais, então a PM estava ali por causa desses equipamentos. Depois, no dia 12, eles voltaram para se acorrentar. Eu conversei com eles por umas duas horas para tentar uma conciliação. Disse que eles tinham todo o direito de professarem o que pensam e que nós também temos todo o direito de nos salvaguardarmos. Disse que usamos a ciência como nossa bandeira. Mas eles demonstraram muita falta de conhecimento. Você pode ser contra o uso de animais de laboratório para experimento. Porém, qual é a solução, o que você tem como sugestão para que o progresso da ciência continue? Há várias décadas, outros manifestos aconteceram e muitas coisas foram mudadas. Aqui no Brasil, temos a lei Arouca (que regulamenta as pesquisas com animais) que foi amplamente debatida na época com as sociedades protetoras dos animais.

O que aconteceu para eles decidirem invadir?

Silvia - Foi marcada uma reunião no gabinete do prefeito para o dia 17, o dia da invasão, com ele e os ativistas. Mas numa reunião prévia com o nosso jurídico, foi decidido pelo gabinete do prefeito que não deveríamos ir a esse encontro porque os manifestantes estavam lá em número muito grande e poderia haver um confronto. Como eles são muito radicais, poderia ter risco para nós. Não fomos. Aí os ativistas acharam que a gente ia tirar os animais de lá porque eles viram uma movimentação do caminhão da ração chegando. Acharam que o caminhão seria usado para tirá-los de lá. Aí, para você ver aonde vai a imaginação da pessoa, disseram que ouviram gritos. Alguém ouviu um latido e disse: 'Olha, esse latido é diferente, tá rouco. Eles estão cortando as cordas vocais'. Eles foram super agressivos com os nossos funcionários, temos cerca de 70 lá. Ao longo dessa semana, como os ativistas permaneceram na frente do laboratório, para os funcionários poderem entrar sem serem colocados em risco, colocamos vans para trazê-los e levá-los embora, com escolta. Naquele dia, ao final do expediente, quando eles iam sair, os ativistas disseram que queriam abrir a van para ver se os cachorros não estavam lá dentro. Deixamos que eles vissem, mas quando a van saiu com os funcionários, eles chacoalharam e depredaram o veículo. Tinha uma funcionária dentro com nove meses de gravidez, em seu último dia antes da licença. Eu chamei uma ambulância para tirá-la de lá. E mesmo assim os ativistas abriram a porta da ambulância para ver se não tinha cachorro lá dentro. Isso aconteceu por volta de 20h e eles entraram no laboratório por volta de uma da manhã.

E somente os cães e coelhos foram levados?

Henriques - Todas as portas foram arrombadas, quebradas. No biotério dos ratos, a grande surpresa foi que as portas estavam arrombadas, mas os ratos e camundongos, cerca de 500, estavam todos lá nas suas caixinhas.

Silvia - Por que será, né? Também são animais de pesquisa. Mas, apesar de eles terem sido deixados lá, estão comprometidos. Uma pessoa só pode entrar nos recintos onde os bichos ficam depois de tomar banho, ser desinfectado, se paramentar. Então, com certeza esses animais foram contaminados com essa sujeira. Não poderão ser usados mais para a pesquisa.

Quais foram os prejuízos para a pesquisa?

Silvia - Eles levaram todos medicamentos. Eram substâncias em três estágios: algumas que estavam para ser testadas, outras que já estavam sendo realizadas em ratos, coelhos e cães e outras que já tinham passado pelos testes, mas ainda estavam sendo finalizados os relatórios. Mas ainda precisamos entrar lá para ver o que foi perdido, danificado ou não. Esperamos que algumas pesquisas possam ser terminadas. Também é importante dizer que a sala do nosso arquivo não foi mexida, então toda a história, todos os testes realizados estão lá.

Henriques - No caso dos coelhos, eles levaram os animais e todo os protocolos com os dados que estavam junto das gaiolas. Também levaram pen drives. Um grupo de cães estava em experimentação. Os ativistas disseram que nós arrancamos a pele de um deles, mas só os pelos tinham sido tosados porque estávamos testando um medicamento fitoterápico com atividade antibiótica. E era uma das últimas etapas em teste pré-clínico para já entrar na fase clínica, em humanos. Essa parte tá perdida. Mesmo se recuperarmos os cães, não temos mais condições de usá-los para a pesquisa. É um prejuízo muito grande. E os ratinhos nós perdemos, os coelhos nós perdemos. No mínimo três experimentos em andamento foram perdidos.

Quantos medicamentos estavam sendo testados nesse momento?

Henriques - Sete ou oito medicamentos.

O Royal diz ser um dos cinco centros de referência do País. O que isso significa?

Henriques - O Ministério da Saúde, no intuito de incentivar a inovação, criou um comitê de farmacologia que define quais são os testes pré-clínicos para produtos farmacêuticos sintéticos e para os biossimilares. Foram convidados para participar cinco centros, alguns em funcionamento, como o Royal, e outros em fase de implementação. Nós nos reunimos com BNDES, Finep, CNPq, representantes da indústria farmacêutica. Ali, avaliamos o que precisava ser feito, quem já tinha condições de fazer, quem tinha Boas Práticas de Laboratório (BPL). A ideia era estimular empresas farmacêuticas brasileiras a usarem esses laboratórios em forma de rede para poder desenvolver novos produtos e ter produtos nacionais. O único funcionando de modo integral, com BPL, é o Royal.

Por que vocês foram o alvo se outros laboratórios também fazem testes com animais e universidades trabalham com macaco-prego, por exemplo?

Henriques - Eu acredito que seja porque trabalhamos com os beagles, que são animais fofinhos, considerados pets. Dizem que trabalhamos com eles porque são dóceis, têm pelo curto, são de fácil manuseio. Mas não é por isso. É porque eles têm um padrão genético bem determinado, que se enquadra em padrões internacionais de testes e tem similaridade com o organismo humano. Ele preenche os requisitos dos padrões internacionais.

Silvia - Porque o Royal é o único que tem a criação de beagles para serem usados em testes pré-clínicos. Os outros compram de canis, como pets. Nós criamos um padrão genético ao longo de dez anos.

Henriques - É a grande perda que nós temos. Um animal comprado pode ter alguma doença, por exemplo, mas os nossos são clinica, bioquímica e biologicamente acompanhados. Tem todo um padrão perfeito. Nos EUA, na Europa, os laboratório compram de grandes empresas que criam os animais nesses padrões. Aqui não temos isso.

Então, para vocês recomeçarem os estudos terão de importar esses animais?

Henriques - Sim, teremos. Acho que o grande problema é que isso vai extrapolar o Royal, vai atingir os novos centros, pode atingir os biotérios nas universidades e outros centros de pesquisa que usem animais de forma geral. Isso representa um retrocesso para o desenvolvimento da ciência da saúde no Brasil. O Royal estava usando esses animais para salvar vidas, produzindo medicamentos para tratar diferentes tipos de doenças, como câncer, diabete, hipertensão e epilepsia, pesquisando antibióticos e anti-inflamatórios.

Por que o Ministério Público estava investigando vocês?

Henriques - No ano passado já tinha ocorrido uma manifestação, a "Marcha pela Vida", e os ativistas fizeram uma denúncia ao MP de maus-tratos. O promotor foi ao Royal com uma veterinária da Organização Mundial de Proteção de Animais. Ela entrou no canil, olhou todo o local. E só sugeriu no final um maior enriquecimento ambiental, que é aumentar as brincadeiras com os animais. Ela não viu nenhum sinal de maus-tratos. Um biólogo depois fez uma outra vistoria a pedido do promotor. Só que ele era um ativista. No laudo ele colocou indicações de que não aceita usar animais em pesquisas e levantou algumas coisas que deveríamos fazer. Fizemos um Termo de Ajustamento de Conduta. No estoque, por exemplo, as gaiolas têm ripas separadas para passar as fezes e urina, mas ele disse que daquele modo podia apertar as patinhas e machucar. Colocamos um material em cima e aceitamos a ideia de reformar o canil para evitar isso. Ele pediu todos os documentos, demos tudo. Só contestamos uma coisa. Eles queriam que filmássemos 24 horas por dia o laboratório, todos os procedimentos. Mas temos contrato de confidencialidade. Não podemos mostrar, não tem sentido. Esse processo estava nas mãos do promotor para dar sua decisão. Foi quando houve a invasão. Agora não tem mais informações, não tem mais cão, não tem mais nada.

Os ativistas têm dito que outros países proíbem uso de animais em pesquisa, mas só há proibição na Europa, por exemplo, para cosméticos e nos testes de fármacos para os grandes macacos, como chimpanzés.

Henriques - A Europa faz esses testes desde a década de 1950 para a indústria farmacêutica. Estamos agora entrando nisso. Só chimpanzé é proibido. Eu visitei quatro laboratórios na Europa que usam beagles, mas nem vou falar o nome porque é capaz de eles irem lá invadir. Eles usam mini-pigs (porcos pequenos), macaco, beagles, até gatos para drogas veterinária. Tudo sob a régia da lei, como é aqui. Não tem medicamento novo se não tiver testes em animais. Todas as agências regulatórias preveem isso. Não existe um conjunto de teste que elimine isso. É uma coisa insana ficar batendo que existem métodos alternativos que resolvem todos os problemas. Eu pergunto: me mostre um produto farmacêutico que foi registrado só com métodos alternativos. Não existe.

O que vocês acham que deveria acontecer com os ativistas?

Silvia - Isso é com a Justiça. Nosso departamento jurídico já está cuidando disso, é só o que posso dizer. Mas vai ter ação sobre isso. Porque eles invadiram uma propriedade privada, depredaram, se apropriaram de um bem - porque nossos animais eram nossos bens -, além de computadores, arquivos. E quem se apropriou dos cachorros é receptador. Nossa maior preocupação é para que os animais retornem. Eles disseram que retiraram por causa de maus-tratos, mas quem cometeu maus-tratos foram eles. Veja a história do Ricardinho (o cachorro que foi mostrado na TV Record com uma placa na mandíbula). Não tratamos nossos animais como pets, mas como passamos anos com eles, temos carinho, eles têm nomes. O Ricardinho era um padreador (macho que cobre as fêmeas). É o mais antigo, mas não estava mais em atividade por causa da idade (tem 7 anos). Por causa da idade e da linhagem, ele tem uma insuficiência renal, que é comum em beagles. Inclusive ele precisa comer uma ração própria para isso. E por causa do problema renal, ele sofre de insuficiência óssea e ao longo dos anos desenvolveu bruxismo e sua mandíbula caiu. Levamos a um veterinário com especialidade em odontologia e ele colocou uma placa entre a mandíbula e o maxilar e colou os dentes por causa do atrito.

Os ativistas podem dizer que isso é uma consequência das pesquisas

Silvia - Sim, eles já dizem. Mas ele era padreador, não passou pelos testes. Ele é um animal doente do qual cuidávamos, porque temos carinho por ele. Estão dizendo que vão tirar a placa. Mas se tirar, além da dor que vai sentir, ele pode morrer na anestesia se o veterinário não souber que é deficiente renal. O que queremos é que quem estiver com o Ricardinho, ou nos devolva ou ao menos que possamos instruir o veterinário. Estamos preocupados, ele pode morrer. Se vai ter um mártir dos 178 animais, é o Ricardinho.

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