Para experts em DNA, tempo não é empecilho, mas há dificuldades

Ossos, estatura, análise da arcada dentária, pinos, próteses e roupas sintéticas podem ajudar na identificação

Nataly Costa, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2011 | 00h00

Uma operação inédita como o resgate dos corpos da tragédia da Air France também divide os especialistas. Alguns acreditam que o tempo transcorrido desde o acidente, quase dois anos, não é empecilho para a leitura do material genético, fundamental na identificação. Para outros, a extração do DNA é mais difícil pelas intempéries do ambiente marinho.

"Dois anos não são nada. Já foi feito o sequenciamento de DNA de múmias do Egito, do homem de Neanderthal, de animais extintos", explica o diretor da Sociedade Brasileira de Genética Médica, Salmo Raskin. Segundo o geneticista, o grau de parentesco das pessoas que forneceram material genético para a comparação com o dos corpos é determinante. "Pai, mãe e filho vão compartilhar 50% do DNA com a pessoa a ser analisada. Se ela só tiver um tio, um primo ou um sobrinho, são necessários mais familiares para comparação."

A temperatura fria do fundo do mar ajudou a retardar o processo de deterioração. Mesmo assim, dificuldades não são descartadas. "Certamente o calor agrediria mais o material biológico, mas não se pode dizer que são condições favoráveis. A salinidade e a água entram nas células, deformando-as", diz Eloísa Auler Bittencourt, diretora do Laboratório de DNA do Instituto de Criminalística de São Paulo. "Não é fácil conseguir DNA de qualidade nesses casos por causa da ação de bactérias do fundo do mar", diz a geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP.

Identificação. Caberá unicamente às autoridades francesas identificar os restos mortais - é improvável que as famílias tenham participação no processo, porque, segundo o diretor do Instituto de Medicina Legal do Distrito Federal, Malthus Galvão, não há mais "representação visual" do corpo. "Não podemos mais falar em reconhecimento, e sim em ajuda na identificação."

Galvão explica que, no primeiro momento, os ossos das vítimas serão medidos e a estatura calculada - as formas da ossada também podem determinar sexo e idade, além das informações previamente fornecidas pelos parentes. A análise da arcada dentária é primordial. "O esmalte do dente é composto 98% por minerais, o que significa uma resistência grande a intempéries." Próteses, fraturas, pinos, restaurações dentárias ou qualquer diferença na estrutura óssea ajudam nessa primeira fase.

Dependendo do caso, vestes sintéticas podem ter sido preservadas - materiais naturais, como algodão e linho, não. Eventuais objetos, como óculos ou relógios, podem ser encontrados junto aos corpos, mas são difíceis de serem resgatados. "É preciso levar em conta que o resgate é feito por braços mecânicos, que não têm a mesma destreza de um mergulhador", diz Galvão.

Ajuda

MALTHUS GALVÃO

LEGISTA DO IML DE BRASÍLIA

"Além do DNA, a contribuição das famílias é com informação. Estatura, sexo, etnia, idade e radiografias dentárias ajudam na identificação"

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