Para ex-usuário de droga, impor a cura não resolve

Religiosos que atuam na cracolândia também dizem que tratamento só é eficaz quando dependente quer

O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2013 | 02h09

Grupos religiosos que já trabalham no enfrentamento ao crack em São Paulo criticam a internação compulsória. Coordenador da Missão Belém, parceira do governo desde dezembro, Eliseu Dias acredita que a internação contra a vontade do usuário não surte efeitos.

"Fui dependente e tudo o que fizeram comigo de maneira forçada, até mesmo cadeia, não resolveu. Acredito que não dá certo", diz Dias. Segundo o coordenador, os usuários da cracolândia ficaram assustados com a possibilidade de serem internados contra a vontade. "Por esses dias, fizeram até uma reunião e disseram que iam revidar com facão, faca. Eles se reuniram imaginando o pior."

O padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua, propôs que, em vez de levar juízes e advogados para o centro, o governo estadual colocasse mais médicos e assistentes sociais nas periferias. "O problema é que esse plantão judiciário trata apenas as exceções, somente os casos considerados muito graves, mas não apresenta um programa justo de tratamento de dependentes químicos para a sociedade."

O pastor Syllas Hernandes, da Cristolândia (missão da Igreja Batista na região central), também faz críticas ao modelo. "A pessoa deve estar consciente de que precisa de uma mudança, por isso acredito que a internação deva ser voluntária."

O promotor de Justiça dos Direitos Humanos, Arthur Pinto Filho, teme o fracasso do projeto. "Cada vez que o governo inventa uma ação mágica, você tem um retrocesso. O que funciona é o trabalho formiguinha, desse pessoal da Missão Belém."

"Não é porque estamos executando essa ação que a rede de atendimento de saúde mental sumiu", diz a coordenadora de Saúde Mental, Álcool e Drogas da Secretaria da Saúde do Estado, Rosângela Elias. "O atendimento continua nos Caps. As exceções vêm para o plantão judiciário."

Vizinhança. Para moradores e trabalhadores do centro, a Operação Centro Legal, iniciada em janeiro de 2012, não surtiu efeito. "Não vi mudança nenhuma. Mexeram para todo o lado, mas não melhorou nada", contou o comerciante Raimundo Campelo, de 40 anos. A agente de atendimento Luciana Santos, de 33 anos, defende a internação compulsória, pois acha que a situação piorou. "A pessoa perde o livre arbítrio. Tirar à força é uma necessidade." / T.D. E W.C.

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