Para especialistas, quadro era de esquizofrenia

Teor da carta deixada por atirador, seu comportamento fechado e doença da mãe reforçam diagnóstico

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2011 | 00h00

É quase inevitável que, depois do impacto de um episódio como o que aconteceu em Realengo, no Rio, as pessoas passem a se perguntar se estão totalmente desprotegidas ou se há como evitar uma tragédia dessas. Mas especialistas explicam que o que aconteceu com Wellington de Menezes é o extremo, é um quadro psicótico. "A psicose é a ruptura com a realidade. No caso dele, tudo indica que sua psicose seja uma esquizofrenia", diz o psiquiatra forense Guido Palomba.

Esses indicativos, segundo o médico, estão muito presentes na carta deixada pelo atirador. A divisão que ele fez do mundo em puros e impuros "é um delírio", diz Palomba, bem como a descrição dos "rituais míticos" que ele planejou para seu corpo. "Outros fatores que deixam claro o quadro esquizofrênico são a forma que ele se portava, solitário e ensimesmado, e o fato de sua mãe biológica também ser esquizofrênica."

O isolamento de Wellington também é destacado por Antonio de Ávila Jacintho, psiquiatra e professor do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Unicamp. "As crianças e os adolescentes esquizofrênicos têm essa personalidade de isolamento, de baixa interação social."

Palomba acrescenta ainda que a idade de Wellington, que tinha 23 anos, é coincidente com a média etária de quando eclodem os primeiros surtos do esquizofrênico, que é de 18 a 28 anos. Jacintho completa que há algo de muito perturbador no pedido do atirador de destinar sua casa a animais desamparados. "É perturbador pensar que alguém que tem a frieza de preparar um crime tão bárbaro tenha esse amor pelos animais."

A ressalva dos especialistas é a de que a agressividade de Wellington é exceção entre os psicóticos. "A maioria absoluta dos esquizofrênicos e dos doentes mentais não é perigosa. Eles se isolam, ficam enrustidos. Alguns podem ser, mas isso não é da doença", diz Palomba.

Surto. O senso comum de que um surto psicótico é algo episódico e pontual também é desmontado pelo médico. "O verdadeiro surto é insidioso. Ele se instala e vai crescendo no doente, não é de um dia para o outro. Não é um piti, um dia de fúria", diz Palomba. Sobre como evitar tragédias como essa, Jacintho é taxativo: "Podemos colocar detectores de metal na porta das escolas. Mas não podemos colocar detectores mentais".

Segundo ele, embora uma terapia e um tratamento com medicamentos possam minimizar os efeitos de um transtorno mental, não há nenhuma garantia total de que o paciente não vá fazer algo tão extremo.

"O atirador do shopping, Mateus da Costa Meira, estava sendo tratado e medicado. E fez o que fez." Mas ele ressalta que a sociedade tem meios de ajudar, tratando, sim, aqueles que apresentem sintomas, repensando o acesso às armas e aumentando a segurança nas escolas.

As nuances da doença

Há vários tipos de psicose, como a esquizofrênica, a maníaco-depressiva, a epilética e a alcoólica.

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