Para especialistas, Estado demora para despoluir rios

Reúso de água e sobretaxa ao consumo excessivo estão entre soluções para abastecimento em SP

Fabio Leite, O Estado de S. Paulo

22 Março 2014 | 16h14

SÃO PAULO - A demora para despoluir os rios urbanos e a busca por fontes de abastecimento cada vez mais distantes das regiões metropolitanas devem intensificar ainda mais "a guerra da água" nos próximos anos, segundo especialistas ouvidos pelo Estado.

"As obras para captar água a distância não são as melhores soluções. Além de investir em água de reúso, estimular o uso racional de forma permanente e despoluir os rios, as cidades deveriam regular a ocupação do solo de acordo com a disponibilidade hídrica da região. E, neste caso, as prefeituras têm sido omissas", afirmou o coordenador da ONG Vitae Civilis, Marcelo Cardoso, especializado em gestão ambiental.

Segundo o presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, mais do que grandes e custosas obras, o governo deveria investir na redução da demanda por água. "Estamos numa situação anômala de regime climático, marcada por pancadas de chuvas concentradas e grandes estiagens. A interligação dos sistemas é essencial, mas também é preciso restringir a demanda. A população estava mal acostumada", disse.

Para Braga, uma forma eficiente de reduzir a demanda seria sobretaxar o uso excessivo da água. "A prefeituras deveriam aprovar leis autorizando as companhias de abastecimento a cobrar o preço da água a partir de determinado consumo. Só pegando pelo bolso é que as pessoas vão economizar para valer", afirmou.

O coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Saldiva, disse acreditar que, se medidas mais eficientes não forem tomadas, a tendência é de que a disputa por água ganhe proporções continentais. "O que vimos nesse embate entre São Paulo e Rio acontecia antes entre os municípios. Como a demanda é crescente e os rios cortam Estados e países, se não mudarmos a estratégia, os conflitos serão mais frequentes e intensos", afirmou, referindo-se ao projeto de transposição de água da Represa Jaguari, em Igaratá, que abastece o Rio, para a Atibainha, no Cantareira.

Segundo o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, Edson Giriboni, o governo paulista tem feito o dever de casa com o projeto de despoluição do Rio Tietê, o programa de redução de perdas de água pela Companhia Paulista de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) e com o aumento da oferta hídrica em 15,6 mil litros por segundo nos últimos 15 anos.

"Já vamos iniciar as obras do Sistema São Lourenço, no Vale do Ribeira, e vamos desapropriar as áreas para fazer as barragens no PCJ (Piracicaba, Capivari, Jundiaí), todas elas consensuais. Só esta transposição do Jaguari que gerou polêmica. Mas nós garantimos que ela não vai afetar o abastecimento no Vale do Paraíba e no Rio. Eles também serão beneficiados com a obra", disse.

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