Reprodução
Reprodução

Para especialistas, diálogo é o caminho para orientar sobre risco de 'Jogo do Enforcamento'

Menino de 13 anos morreu após brincadeira; estudo feito nos EUA chegou a 82 casos semelhantes entre 1995 e 2007

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2016 | 23h14

O diálogo sem intimidação é a principal recomendação de especialistas para orientar crianças e adolescentes sobre os riscos do “Jogo do Enforcamento”, que pode causar danos no cérebro e levar à morte. “Isso já estava acontecendo nos Estados Unidos há muito tempo. Os pais devem abrir espaço para o diálogo para criar um vínculo de confiança. Com ações punitivas e castradoras, eles se afastam dos filhos”, diz Ricardo Monezi, especialista em Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Em 2008, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, publicou levantamento de mortes por estrangulamento acidental entre jovens de 6 a 19 anos no período de 1995 a 2007. Com base em informações de noticiário, os pesquisadores chegaram a 82 casos e constatam que 86% dos registros ocorrem entre meninos. A idade média das vítimas era de 13 anos, a mesma de Gustavo Riveiros Detter, que morreu no domingo, após se enforcar em uma brincadeira online.

Professora do Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP), a psicanalista Gabriela Malzyner diz que os pais não precisam ser invasivos, mas devem acompanhar hábitos dos filhos. “São os responsáveis pela criança e devem ficar atentos, perguntar o que o filho está fazendo, com quem está falando. Ao identificar um comportamento arriscado, devem procurar espaços para a conversa, que também pode ser feita por um tio ou primo mais velho. É importante colocar o jovem na comunidade e fazer uso dela para o bem.”

Gabriela explica que é importante verificar se o jovem está com algum problema e, por isso, resolve participar de brincadeiras perigosas.

“Sabemos que tem o comportamento que faz parte do jovem, que é de querer se inserir em um grupo. Mas há casos em que o jovem está em sofrimento e acaba errando ao participar de uma brincadeira. Uma coisa é colocar a mesma calça que um amigo usa e outra é se colocar em risco.”

Em sua conta no Facebook, que estava fora do ar na noite desta segunda, Detter costumava colocar informações sobre o universo dos games. Em julho, escreveu: “Meu sonho é morar num cemitério”. A publicação não causou preocupação entre seus amigos. Uma página lamentando a morte do jovem foi criada e já contava com mais de 400 seguidores nesta segunda.

Danos. Monezi explica que, ao se enforcar, há uma obstrução do fluxo sanguíneo que vai para o cérebro e o desmaio é causado por essa falta de oxigenação. “A obstrução do fluxo sanguíneo prejudica o sistema nervoso e pode causar a morte ou causar sequelas. Dependendo do tempo da obstrução, a pessoa pode ter paralisia cerebral, lapsos de memória e perda de função cognitiva. Isso está longe de ser uma brincadeira”, diz.

PRESTE ATENÇÃO

1. Converse sempre com seus filhos sobre os riscos de brincadeiras como o “Jogo do Enforcamento” ou outros desafios que coloquem a saúde e a vida em risco.

2.Utilize notícias sobre casos de jovens que viveram situações de risco para conversar e orientar seus filhos sobre a melhor maneira de lidar com a internet. Mas não é necessário amedrontá-los nem intimidá-los.

3. Os pais são responsáveis pelo bem-estar físico e psíquico das crianças e adolescentes, logo, devem acompanhar o que eles estão fazendo para poder intervir, caso estejam em perigo.

4. O tempo utilizando computadores, celulares e redes sociais deve ser negociado. Mostre para seu filho atividades que podem ser feitas fora do mundo virtual e como isso pode ser prazeroso.

5. Converse sobre o conteúdo que seu filho acessa e sobre as brincadeiras de que ele participa. Crie uma relação de confiança e saiba ouvi-lo, caso ele que queira tirar dúvidas ou desabafar.

6. Se notar algum comportamento diferente ou encontrar objetos estranhos nos pertences dele, converse e tente entender o que há de errado. Busque apoio de especialistas, se não conseguir ajudá-lo

Mais conteúdo sobre:
Estados UnidosUnifespFacebook

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.