'Para entrar, doei duas casas e um carro'

Carlos (nome fictício), de 48 anos, diz ter entrado no grupo Jesus A Marca da Verdade após ouvir os "bonitos ensinamentos" do pastor Cícero Araújo. Vendeu o que tinha e mudou de São Paulo com a família para o interior de Minas. Por três anos, viveu sob regras duras e trabalhou como pintor sem receber um centavo. Até perceber que havia caído "numa fria".

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

28 Abril 2013 | 02h00

Qual é a filosofia da seita? A filosofia era... todo mundo entrou achando que fosse uma coisa e era outra.

Como era? Na igreja, era muito bom. O pastor falava direitinho, ensinava a ser honesto, ensinava a não negar a verdade. Era um ensinamento bonito, não vou negar para você. Contagiava a pessoa.

Como o senhor decidiu mudar para a comunidade? A gente fez reunião, decidiu dar o que tinha.

O pastor pediu? Ele falava tanta coisa...

O senhor vendeu tudo? Tinha duas casas e um carro, né? Deu R$ 39 mil. Doei. Aí trabalhei lá como pintor.

E o senhor não ganhava nada? Não. Só casa e comida. Para ganhar um par de calçado, era um sacrifício...

Como eram as regras? Homem dormia separado de mulher, diziam que sexo era pecado.

É permitido sair da casa? Tem de pedir autorização. E só acompanhado.

Por que não saiu antes?

A gente fica impactado.

Como foi quando o senhor avisou que ia sair? Disseram que eu estava amaldiçoado, que iria para o inferno.

Pediu suas coisas de volta?

Pedi. O pastor Araújo disse para eu ir à Justiça.

O senhor conseguiu algo? Passaram uma casa para o meu nome... O carro eu trabalhei para comprar outro.

Há quem não consiga sair? Tem. Imagina uma pessoa com 50 anos, com 15 lá dentro, sem contato com parente. Já deu tudo que tinha...

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