Epitacio Pessoa/AE
Epitacio Pessoa/AE

Para eles, apagão faz parte da rotina

Em cidades da Grande São Paulo, famílias ainda têm de recorrer a lampiões, fornos a lenha e velas não só em dias de grandes blecautes

Márcio Pinho, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2011 | 00h00

Os telefones celulares têm cada vez mais funções, mas a mais imprescindível para alguns moradores da Grande São Paulo tem sido a boa e velha luzinha da tela que os ajuda a enfrentar recorrentes apagões e a demora em se retomar o fornecimento de energia elétrica. Lampiões a gás, forno a lenha e velas de todos os tipos foram itens incorporados à rotina de famílias que vivem com um pé na pré-história.

Há 27 anos, as quedas de energia atormentam o aposentado Arnóbio Washington Filho, de 59. Os problemas começaram quando ele se mudou para o Parque Rizzo II, um bolsão residencial na cidade de Cotia, próximo à Granja Viana. A região é bastante arborizada e, em dias de vento e chuva, é comum galhos atingirem a rede elétrica, comprometendo a distribuição de energia. "Acredito que pelo menos umas cinco vezes por ano ficamos sem energia por isso", diz.

A frequência fez com que velas deixassem de ser suficientes e Washington tivesse de adotar um lampião a gás. Como um aldeão com sua lamparina, ele sai de madrugada com o artefato para abrir o portão para os filhos entrarem com o carro na garagem, já que o controle remoto de nada adianta nesses dias. Uma luminária também está sempre a mão e funciona como luz de emergência.

"Não há nenhum vestígio de luz artificial, porque ficamos em região isolada, reféns da situação. É um breu total", afirma Washington, que transformou sua casa quase em um parque aquático com seis caixas d"água. O motivo é que, quando falta energia, não é possível bombear a água do poço. "Temos de armazenar para o pior."

Fogão. Na parte oeste da Região Metropolitana de São Paulo, quem também fica às escuras em dias de chuva é o morador de Embu das Artes Albert Silva Ribeiro, de 22 anos. Vivendo há um ano na atual residência, no Jardim Pinheirinho, o ajudante de reposição diz que os apagões se repetem, mas que alcançaram seu ápice em junho deste ano. A energia desapareceu com os ventos de 124 km/h do dia 7 de junho, uma terça-feira, e só voltou na sexta-feira da mesma semana.

Durante os quatro dias sem energia, Albert recorreu ao fogão a lenha montado no quintal de sua casa com latas de tinta vazias e tábuas. Foi a forma encontrada pelas seis pessoas que moram com Ribeiro para tomar banho. Nele, conseguiam esquentar de uma vez só uma grande quantidade de água. Além disso, uma lata de 20 litros de óleo funciona muitas vezes como um caldeirão. "Toda vez que falta energia é uma trabalheira para poder tomar banho quente. Já nem desmontamos mais o fogão", conta Albert.

O próximo passo na estratégia da família será comprar uma geladeira de isopor para evitar que toda a comida da geladeira estrague, como ocorreu no apagão de junho. Carne, frango e outros alimentos estão entre os alimentos que foram jogados fora.

Capital. Em outro extremo da Região Metropolitana, no Grajaú, bairro da zona sul de São Paulo, tomar banho também é um desafio. O morador Nyldo Moreira conta que sua avó Marly Batista de Souza, de 67, tem problemas de saúde e não pode tomar banho gelado. Nos dias de apagão, sem o chuveiro, a alternativa encontrada é esquentar água no fogão. "Essa falta de luz tornou-se também falta de respeito das autoridades, que de fato não se mostram competentes", afirma.

Segundo ele, sempre que há expectativa de chuva, os moradores já se programam para enfrentar um apagão. Tanto que em sua casa até vela de sete dias, comum para orações porque duram mais do que as comuns, acabam sendo usadas para iluminar o ambiente durante os períodos sem energia elétrica.

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