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Jairo Bouer
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Para diminuir a vontade de beber

Você tomaria uma substância que provoca efeitos semelhantes aos do álcool, como euforia e desinibição, não deixa sinais de ressaca no dia seguinte, não traz risco de dependência e que, ainda, pode ser "combatida" por um antídoto momentos antes de você deixar a balada? Na última semana, o jornal inglês The Independent revelou essa linha de pesquisa que vem sendo desenvolvida no Imperial College, em Londres, para uma possível substituição do álcool. Neurotransmissores cerebrais ligados ao prazer quando se bebe seriam ativados por essa droga, criando sensações muito semelhantes. Em teoria, esses efeitos poderiam ser rapidamente bloqueados por um antagonista, permitindo que a pessoa, por exemplo, voltasse para casa guiando.

JAIRO BOUER, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2013 | 02h05

O motivo por trás dessa tentativa de substituição é reduzir os riscos de abuso e dependência gerados pelo álcool, que afetam cerca de 10% das pessoas que bebem mundo afora. Os pesquisadores acreditam que a droga poderia ter um papel equivalente ao que o cigarro eletrônico tem ocupado na tentativa de se fazer abandonar o fumo.

Mas será que funcionaria mesmo? Imagine a situação: a pessoa misturou a potencial nova droga para beber com seu coquetel de frutas ou energético na balada e está se sentindo feliz, desinibida e animada. Chega a fatídica hora de ir embora. Ela teria mesmo consciência sobre suas reações (avaliação crítica do seu estado) e desejo de interromper as sensações prazerosas? Não é o que se costuma ver com outros tipos de droga! Dá para garantir que não haveria dependência simplesmente porque existiria um antídoto em potencial? Bem, muitos pontos ainda para os pesquisadores trabalharem.

Ainda em relação ao álcool, no início de novembro foram divulgados dados de um trabalho realizado no Instituto de Saúde Mental de Mannheim, na Alemanha, que mostram que o Nalmefeno (primeira droga aprovada na União Europeia, desde março de 2013, para o tratamento do alcoolismo) conseguiu reduzir em 60% o consumo de álcool pelos dependentes.

A substância é um "modulador" ou "bloqueador" opioide, ou seja, de forma simplificada, ele se liga aos receptores das substâncias que são liberadas pelo organismo quando se bebe e que criam a sensação de prazer. Quem bebia em maiores quantidades foi mais beneficiado pela nova medicação, de acordo com o estudo. Uma minoria dos usuários conseguiu abandonar completamente a bebida, mas a maior parte reduziu seu consumo para 40% do que bebia anteriormente. O remédio reduz o "prazer" e o bem-estar que se sente quando se bebe e, com isso, as chances de abuso e dependência seriam diminuídas.

Longe de ser solução definitiva para o tratamento de um problema tão complexo como a dependência por álcool, que exige uma série de intervenções combinadas como terapia individual, apoio familiar, grupos de autoajuda (como os AAs), tratamento de condições psiquiátricas de base (depressão, ansiedade e distúrbio de déficit de atenção, entre outras), o Nalmefeno pode ampliar o arsenal terapêutico à disposição de médicos e pacientes.

Nos Estados Unidos, na Rússia e no Brasil existe uma medicação aprovada, de mecanismo similar, conhecido como Naltrexona, que vem sendo usada há alguns anos, com alguns bons resultados, para tratamento do alcoolismo, embora também parciais.

Já existem estudos que testaram o Nalmefeno em distúrbios do controle de impulso (como o jogo patológico) com alguns resultados positivos, o que indica que o mecanismo de atuação nos receptores que são ligados à sensação de prazer pode funcionar para diversos tipos de dependência.

Moral da história: apesar das novas tecnologias que vêm sendo desenvolvidas, a "briga" para tentar diminuir o número de pessoas que enfrentam problemas com a bebida está longe de terminar, o que reforça a importância de trabalhar, em educação e saúde pública, a prevenção ao uso indevido do álcool.

É PSIQUIATRA

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