Para críticos, há risco de candidato desistir da carreira

Médicos, professores e associações dizem que obrigar estudante de Medicina a trabalhar na rede pública não vai melhorar formação

Davi Lira, Herton Escobar, Ocimara Balmant, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2013 | 02h07

Médicos, professores e associações continuaram a criticar duramente ontem os novos planos anunciados pelo governo federal para a área da saúde. Para o diretor da Escola Paulista de Medicina (EPM) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Antonio Carlos Lopes, as medidas são "precipitadas" e poderão até piorar a situação do ensino e do atendimento médico no País.

Segundo Lopes, obrigar os alunos a trabalhar dois anos no sistema público para obter o diploma não vai ajudar na formação. "Pelo contrário, corre o risco de eles desistirem da Medicina, tamanha é a falta de infraestrutura do sistema. Nem cidadania eles vão aprender", afirma o cardiologista, que também preside a Sociedade Brasileira de Clínica Médica. "Para aprender é preciso infraestrutura e orientação qualificada, e o SUS (Sistema Único de Saúde), atualmente, não oferece condições."

Melhor e mais prático, segundo ele, seria incorporar esse tipo de experiência aos currículos acadêmicos já existentes, sem acrescentar os dois anos - que tornam a formação excessivamente longa. "Nós, que botamos a mão de verdade nos pacientes, sabemos do que estamos falando", afirma.

As críticas não vêm só de São Paulo. O professor Antonio da Silva é do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Estado com a menor quantidade de médicos por habitante - 0,52 para cada mil moradores, no SUS. E, mesmo assim, ele é contrário à medida. "É uma decisão arbitrária, que apenas tapa um buraco e não resolve o cerne da questão", afirma.

O problema da falta de atratividade, diz ele, não é a localização remota dos postos de trabalho, mas a falta de perspectiva da própria carreira. "Basta comparar com os juízes. Eles estão em todos os rincões do País, sem ter de ser obrigados a isso. Mas por que isso acontece? Porque o Judiciário tem um plano de carreira e o profissional sabe que ficará um tempo em algum lugar distante, mas depois voltará ao grande centro."

As mudanças também não são vistas "com bons olhos" pela coordenadora do curso de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Iasmin Duarte. "O governo quer é mão de obra para trabalhar no SUS."

Iasmin ainda critica o prazo, considerado pequeno, para adaptar a estrutura curricular do curso. "Não sei se dá para mudar até 2015. Uma reforma grande no currículo como essa exige todo um estudo amplo. Na última que fizemos gastamos quatro anos", diz.

Com tempo. Já Erastos Fortes, membro do Conselho Nacional de Educação (CNE), considera "perfeitamente" adequado o tempo de adaptação dos cursos ao novo currículo. O CNE tem um prazo de 180 dias para regulamentar as mudanças.

"Não há por que ter pressa para se formar, os alunos precisam ter um contato maior com o SUS", afirma Mario Saad, diretor da Faculdade de Medicina da Unicamp. / DAVI LIRA, HERTON ESCOBAR E OCIMARA BALMANT

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.