Para arquiteto, faltou manutenção no prédio histórico

Diretor do Mackenzie lembra que o Liceu é um símbolo da qualidade de construções na cidade de São Paulo

Laura Maia de Castro e Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2014 | 02h04

Manutenção precária. Segundo especialistas ouvidos pelo Estado, este é o problema que está na raiz de acidentes como o ocorrido na madrugada de ontem no centro cultural do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. "Pegar fogo é um acidente, mas é preciso ter plano de prevenção e combate ao incêndio, além de manutenção constante", diz o arquiteto Valter Caldana Junior, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

De acordo com o arquiteto, por todo o simbolismo do Liceu (sinônimo de capacitação de mão de obra com qualidade para a construção civil, sobretudo na primeira metade do século 20), o fato de o centro cultural ter sido destruído assim é "um tapa na cara da sociedade paulistana". "É uma contradição, que faz a gente repensar o que se faz com os bens culturais, com a história", alerta Caldana. Ele lamenta outros casos em que patrimônios culturais foram destruídos por incêndios, como o Teatro Cultura Artística e o Auditório do Memorial da América Latina. "Ou mesmo o Museu do Ipiranga. Lá não foi incêndio, mas a falta de manutenção obrigou a direção da instituição a fechar suas portas (desde agosto)", aponta.

História. Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo também lamentou o acidente. "O Liceu, em seu auge, foi o celeiro das grandes obras de São Paulo", contextualiza Toledo. "Dali saíram carpinteiros, serralheiros e outros profissionais para a construção de ícones paulistanos como o Teatro Municipal, além de inúmeros casarões dessa época."

Entre os ilustres que lecionaram no Liceu está o engenheiro e arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851-1928), de cujo escritório saíram os projetos de obras como a Pinacoteca do Estado (onde ficava, aliás, a sede do Liceu), o Teatro Municipal, a Casa das Rosas e o Mercado Municipal, entre outras. Formado em Gante, na Bélgica, Ramos de Azevedo foi diretor do Liceu. "Ele era tão respeitado que, dizem, quando passava pelo corredor, todos os alunos se levantavam e tiravam o chapéu", conta Toledo.

Pelas carteiras e oficinas do Liceu passaram o escultor Victor Brecheret (1894-1955) e o aviador Alberto Santos Dumont (1873-1932).

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