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Papel é mais uma prova contra PMs

Achado ao lado de Kadett de rapazes encontrados mortos na zona sul, ele tinha referência a batalhão de policiais suspeitos do crime

Josmar Jozino JORNAL DA TARDE, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2010 | 00h00

Um papel queimado com referência ao 50.º Batalhão da Polícia Militar incrimina ainda mais o tenente Mauro da Costa Ribas Júnior e os soldados Wagner Ribeiro Avelino, Christiano Hideki Kamikoga e Rafael Joinhas dos Santos. Os quatro policiais militares são suspeitos de envolvimento no assassinato de Emerson Heida, de 28 anos, e Edson Edney da Silva, de 27, e tiveram a prisão temporária de 30 dias decretada pela Justiça.

Uma testemunha encontrou o papel em 14 de setembro, mesma data em que o Kadett ocupado pelos dois amigos - desaparecidos quatro dias antes, após abordagem policial - foi localizado carbonizado num matagal em Parelheiros, zona sul da capital. Segundo o delegado William Eiras Garcia Wong Alves, da equipe D-Sul do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, o pedaço de papel foi achado perto do veículo queimado.

O material foi encaminhado para o Instituto de Criminalística (IC) para perícia. O delegado quer saber se realmente se trata de um documento oficial da Polícia Militar. No papel aparecem as inscrições Polícia Militar do Estado de São Paulo e 50.º BPM/M e o número 63/040/10. Um capitão disse ao delegado que o papel queimado pode ser um ofício expedido pelo 50.º Batalhão, unidade na qual os quatro PMs presos serviam. Alves aguarda ainda o resultado de pelo menos outros oito exames.

Outra prova técnica que incrimina o tenente Ribas Júnior e soldados Avelino, Kamikoga e Santos foi o sangue encontrado na Blazer da Força Tática ocupada pelos PMs em 10 de setembro, dia da abordagem e desaparecimento dos dois rapazes. Um teste de DNA concluiu que o material genético analisado é compatível com o de Emerson Heida.

Testemunha. No dia do desaparecimento, o irmão de Heida, Anderson, viu os dois serem abordados por policiais militares no cruzamento das Avenidas Robert Kennedy e Professor Papini, em Cidade Dutra, na zona sul. Anderson tinha ido até o local com os rapazes em um Kadett. Como estava de carona, foi deixado em um ponto de ônibus e, ao entrar no coletivo, testemunhou a abordagem. A Polícia Militar encontrou um vídeo com o registro dos jovens sendo abordados ao lado de uma Blazer da corporação. A fita também está no Instituto de Criminalística para ser periciada.

O delegado Alves apurou que a Blazer usada pelos PMs suspeitos rodou 170 km no dia do desaparecimento de Emerson e Edson, distância considerada acima da média para um carro do batalhão.

Briga. Segundo a Polícia Militar, a motivação do crime seria uma briga entre Heida e um dos quatro acusados durante um jogo de futebol em um campinho de Parelheiros, extremo da zona sul de São Paulo, há cinco anos. Os dois moravam no mesmo bairro. Heida teria sido ameaçado pelo vizinho. Segundo uma testemunha, ele disse para o rapaz: "Você vai ver. Eu vou virar policial um dia e espera o que vai te acontecer." Na época, o suspeito não havia ingressado na Polícia Militar.

Alves não descarta a participação de outros policiais nos assassinatos dos dois rapazes. O corpo de Edson foi encontrado carbonizado, em Parelheiros, no dia 11 de setembro e identificado por exame de DNA no último dia 5. O enterro aconteceu ontem no Cemitério de Campo Grande. O corpo de Emerson também foi localizado carbonizado em Parelheiros, em 23 de outubro, e enterrado quatro dias depois no mesmo cemitério. Anderson reconheceu o irmão por causa das duas tatuagens.

Os quatro policiais militares acusados pelo crime estão recolhidos administrativamente na Corregedoria da Polícia Militar, na Luz, região central de São Paulo, e devem ser transferidos hoje para o Presídio Romão Gomes, na Água Fria, zona norte da capital. De acordo com informações da PM, o tenente Ribas Júnior está na corporação há quatro anos e sete meses.

CRONOLOGIA

Abordagem foi há dois meses

10 de setembro

Desaparecimento

Emerson Heida e Edson Edney da Silva desapareceram após serem abordados por PMs em Cidade Dutra, na zona sul

11 de setembro

Denúncia

Corregedoria da Polícia Militar e 48.º Distrito Policial iniciam investigação do caso

14 de setembro

Primeira descoberta

Kadett vermelho no qual os amigos estavam aparece queimado em Parelheiros

23 de outubro

Mais evidências

Corpo carbonizado é encontrado em Parelheiros. A PM encontra vestígios de sangue em viatura

25 de outubro

Identificação

Anderson Heida identifica duas tatuagens no corpo como sendo do irmão Emerson

5 de novembro

Segundo corpo

Outro corpo encontrado em Parelheiros é identificado por DNA como de Edson Edney. Os quatro policiais militares suspeitos do crime têm prisão temporária de 30 dias decretada pela Justiça

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