'Papas do século 20' tornam-se santos

João XXIII e João Paulo II conheceram todas as tragédias do período, mas não foram vencidos por elas, disse papa Francisco em missa

JOSÉ MARIA MAYRINK, ENVIADO ESPECIAL / VATICANO, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2014 | 02h06

A multidão calculada em 800 mil peregrinos que assistiram ontem à missa de canonização dos papas João XXIII e João Paulo II prendeu a respiração por um instante e em seguida aplaudiu, entre sorrisos e lágrimas, as palavras que Francisco pronunciou, em latim, ao anunciar a decisão de declarar santos os seus dois predecessores. A fórmula era ritual, mas a emoção foi muito grande diante do quadro que se tinha à frente, com a imagem de quatro papas - Francisco ao lado do papa emérito Bento XVI no altar e os dois novos santos projetados em painéis na sacada da Basílica de São Pedro.

Eram 10h15 (5h15 no horário de Brasília). Uma chuva fina que ameaçava a festa parou de repente e o sol apareceu no céu nublado. Teresina Mariani, da cidade de Seregno, província de Bérgamo, soluçou de alegria. Vizinha de Sotto il Monte, terra natal de João XXIII, ela comemorava mais a canonização de João Paulo II. "Tenho uma foto ao lado dele, de quando recebeu em audiência um grupo de Seregno", contava. A seu lado, Mariangela Asmaghi e seu marido Adélio, da cidade de Mera, na mesma região, rezavam a São João XXIII.

O grupo de italianos estava perdido entre centenas de poloneses que agitavam bandeiras vermelho e branco, suas cores nacionais, e cartazes com declarações de amor ao papa Wojtyla. Num deles apareciam os dois papas santos, ao lado da imagem de Jesus. Como ocorreu no dia da beatificação, em maio de 2011, os poloneses se destacavam entre os que enchiam a Praça São Pedro, a Praça Pio XII e a Via della Concilliazione, até as margens do Rio Tibre.

A cerimônia começou com o canto da Ladainha de Todos os Santos, às 9h45, no momento em que o papa emérito Bento XVI, de 87 anos, chegou ao altar. Entre as quase 100 delegações oficiais presentes, a Televisão Vaticano destacou o rei Juan Carlos e a rainha Sofia, da Espanha, e o ex-presidente da Polônia, Lech Walesa. O Brasil não entrou na lista de delegações, mas dois brasileiros estavam entre as autoridades: o ministro conselheiro da Embaixada do Brasil na Santa Sé, Sílvio Meneses, e o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), José Francisco Graziano da Silva.

Papas do século. A homilia do papa, em italiano, durou dez minutos. Francisco comentou o Evangelho do domingo, sobre o episódio em que Jesus mostra suas chagas aos discípulos, aos quais apareceu após a ressurreição. "São João XXIII e São João Paulo II tiveram a coragem de olhar as chagas de Jesus", disse Francisco. "Foram sacerdotes, bispos e papas do século 20. Conheceram todas as suas tragédias, mas não foram vencidos por elas."

Após a missa, Francisco percorreu a Praça de São Pedro no papamóvel, estendendo o giro à Via della Concilliazione. Os pontos de saída ficaram fechados durante uma hora, até o papa se retirar. Os peregrinos estavam cansados, pois já se encontravam na praça desde a madrugada.

O acesso foi aberto às 4 horas, mas não era fácil chegar aos pontos eletrônicos de controle. As filas duraram uma hora e meia. Padre Clairisson Saraiva, de Belo Horizonte, acampou nas redondezas e foi dos primeiros a entrar. "Eu devo minha vocação a São João XXIII, pois ele foi um exemplo para mim, quando entrei para o seminário e fui ordenado aos 32 anos", disse. Também acampou nas proximidades do Vaticano um grupo de brasileiros da Comunidade Shalom. Ninguém se queixava do desconforto.

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