'Papa de casa faz milagre', diz argentino

Entronização do cardeal Jorge Bergoglio transforma país e aumenta número de católicos

O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2013 | 02h09

"Papa de casa faz milagre!" Com estas palavras o católico Umberto De Filipo, um aposentado do bairro de Flores, em Buenos Aires, ilustrou a mudança que a eleição de um papa portenho está gerando na sociedade argentina, onde a proporção de católicos praticantes, segundo diversas pesquisas - até a entronização do cardeal Jorge Bergoglio como papa Francisco - oscilava entre 6% e 9% da população do país, proporção superada pelos ateus declarados, que era de 12%. "As paróquias, que antes estavam vazias, agora contam com mais pessoas", explica De Filipo sorridente ao subir as escadarias da Basílica de San José de Flores para assistir à missa.

Fontes de diversas igrejas portenhas indicaram que o número de fiéis presentes em missas aumentou nos últimos meses, além de registrar um aumento substancial nos confessionários. O papa faz sucesso não somente entre católicos, mas também entre ateus e agnósticos, já que diversas pesquisas indicam que 70% dos argentinos simpatizam com o sumo pontífice compatriota, enquanto que 28% são indiferentes sobre o novo papa. Mas somente 2% declaram que não gostam do novo líder mundial dos católicos.

A "Francisco mania" fica evidente nos milhares de argentinos que começaram a pendurar de suas janelas e sacadas a bandeira amarela e branca do Vaticano com o escudo com as chaves de São Pedro. O sucesso de Francisco também fica evidente nas revistas que vendem suas fotos adesivas e nos pôsteres em tamanho natural nas bancas de jornais.

A imagem de Francisco também está presente em um gigantesco mural de 88 metros de largura por 44 metros de alto, instalado pelo governo da capital na fachada de um prédio, que olha com ar beatífico o caótico trânsito no centro portenho. Intelectuais argentinos, outrora críticos da Igreja Católica, agora não escondem sua simpatia pelo novo papa, ressaltando que continuam anticlericais, embora sejam circunstancialmente "bergoglistas".

No entanto, mais além do circunstancial entusiasmo, o sociólogo Fortunato Mallimaci, pesquisador do Conselho Nacional de Ciências e Tecnologia (Conicet) admitiu que existem grandes expectativas sobre eventuais reformas na Igreja Católica. No entanto, Mallimaci descarta que as mudanças possam ocorrer de forma substancial: "Nos anos 60, quando ocorreu o Concílio Vaticano II, a Igreja estava havia anos imersa em debates. Mas atualmente os clérigos estão mergulhados há 30 anos em um imenso silêncio. A discussão interna do catolicismo acabou na maioria dos países. "Quem o papa chamará para discutir uma nova Igreja? Frei Boff ou o Opus Dei?"

O cenário político também mudou desde a entronização de Francisco. O governo da presidente Cristina Kirchner, que durante uma década encarou o cardeal como virtual inimigo e "líder da oposição", deu um giro de 180 graus e passou a tratá-lo de forma elogiosa, enfatizando o fato de a região contar com um papa "latino-americano". / A.P.

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