Palhaços reeditam modernistas e 'jantam' Piolin

Banquete antropofágico vai comemorar o Dia do Circo, celebrado hoje; espetáculos gratuitos e passeata também estão previstos

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

27 Março 2012 | 07h43

Senhoras e senhores, respeitável público, hoje é o Dia do Circo. E vai ter festa, vai ter lona, vai ter picadeiro. O endereço, simbólico, é o Teatro Municipal, no centro de São Paulo, que recentemente passou por uma completa reforma e comemorou 100 anos de fundação.

"Vamos homenagear os palhaços, que tanta alegria trazem a crianças, jovens e adultos, e formam uma classe, infelizmente, superdesprestigiada", diz José Mauro Gnaspini, curador do evento promovido pela Secretaria Municipal de Cultura.

Gratuita, a comemoração começa às 10h30. Sob a lona montada na frente do teatro, vão se apresentar, até o início da noite, diversas companhias circenses contemporâneas. "Será um espetáculo atrás do outro", explica Gnaspini. Ele é experiente na organização de manifestações do tipo: também é curador da Virada Cultural, maratona de eventos que ocorre anualmente, desde 2005, na capital.

Ao meio-dia, uma "palhasseata" sairá do Teatro Municipal e passará por locais importantes para a história circense paulistana, como o Beco do Piolin, no Largo do Paiçandu - no domingo, a Avenida Paulista já foi palco de uma passeata de palhaços.

"Será uma manifestação bacana para que os paulistanos se lembrem do Dia do Circo", acredita o organizador.

O Largo do Paiçandu e o dia 27 de março são extremamente simbólicos para a categoria. O Dia do Circo no Brasil é comemorado nesta data porque foi quando, em 1897, nasceu Abelardo Pinto, o palhaço Piolin, que se consagraria nos anos 1920, na companhia do grupo uruguaio Irmãos Queirolo. Mais tarde, Piolin montaria sua própria trupe. E, em 1972, para comemorar o cinquentenário da Semana de Arte Moderna, o então diretor do Museu de Arte de São Paulo (Masp) Pietro Maria Bardi convidou o Circo Piolin para se apresentar no vão livre do museu.

Antropofagia. A proximidade de Piolin com os modernistas, no entanto, vinha de muito antes. Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Menotti del Picchia e outros intelectuais do movimento literário, artístico e cultural consolidado na Semana de Arte Moderna - realizada em fevereiro de 1922 no Teatro Municipal - viam no humor espontâneo de Piolin muitos dos ideais do Modernismo.

Não à toa, em 27 de março de 1929, aniversário do palhaço, 32 modernistas se reuniram no restaurante da Casa Mappin, em São Paulo, para "comer" Piolin. O "melhor palhaço do mundo", como a ele se referiam, foi simbolicamente devorado em um "banquete antropofágico". Na ocasião, Piolin interpretou sua própria morte.

"Mas Piolin não morrerá hoje, nem de alegria nem teatralmente. Começará a viver uma vida maior na admiração do Brasil, apontado nesse almoço-homenagem como um dos nossos mais sérios e honestos artistas", apontou, na ocasião, Menotti del Picchia.

Em alusão a esse evento, o restaurante do Teatro Municipal será palco de uma reedição desse ritual: cem palhaços contemporâneos foram convidados para um banquete, fechado ao público. Entre eles, Gachola, Pepin, Romiseta, Jurubeba, Mingal, Madureira, Chumbinho, Pururuca, Banzé, Moranguinho, Chuvisco, Cacareco, Maskarito, Cascarita, Maluquinho e Fafá.

No cardápio, quitutes batizados com o nome do palhaço, como o brochete do coraçãozinho do Piolin (veja ao lado). Para beber, sangria no picadeiro e água que passarinho bebe, além de "outras águas coloridas que soltam bolinhas", lista o menu. "Vai ser uma palhaçada, uma mesa de palhaços", diz Gnaspini.

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