País chega a 600 mil usuários de crack e governo lança plano de combate

Promessa é dobrar nº de leitos em hospitais para atendimento de dependentes; em SP, programa no centro internou 240 em 10 meses

Bruno Paes Manso e Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2010 | 00h00

Dependentes usam crack na Rua Helvétia, no centro de São Paulo, no início da tarde de ontem. Eles faziam parte de um grupo de cerca de 40 pessoas que consumia a droga no local  

 

Em cinco anos, o número de usuários de crack quase dobrou no Brasil: de 380 mil para 600 mil. O problema agora mobiliza o governo federal, que planeja dobrar o número de vagas para internação de usuários neste ano - de 2,5 mil para 5 mil - e lançou ontem um programa de R$ 410 milhões. Mas se São Paulo, base das ações governamentais anteriores servir de exemplo, o desafio está longe de ser vencido.

 

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O presidente Lula defendeu a ação conjunta de diferentes esferas governamentais e entidades. "Vamos querer que os prefeitos, governadores, sindicatos, igrejas, todos participem, queremos enfrentar isso de modo decisivo", disse. "Mas o desafio será grande porque existem dificuldades clínicas para identificar o problema. A dependência é muito maior do que a de outras drogas e o saber sobre o crack no Brasil ainda é incipiente", observou o sociólogo Luiz Flávio Sapori, coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa em Segurança Pública da PUC-Minas, que finaliza estudo sobre o crack na Grande Belo Horizonte.

Há exatos dez meses, teve início a Ação Multidisciplinar Centro Legal, da Prefeitura de São Paulo, esforço concentrado de técnicos da Saúde, Assistência Social e de policiais para atuar de forma concentrada e ininterrupta na região da cracolândia. Foi feito um censo que deu nome a todos os dependentes que vivem na região. São 442. Se considerar aqueles que vagam dias pelo local para usar a droga, a população pode ser multiplicada por cinco. Diariamente, mais de 160 agentes comunitários realizam, em média, 300 abordagens para convencer esse grupo a procurar ajuda. Em dez meses, foram mais de 87 mil abordagens.

Houve 4.463 encaminhamentos a unidades de saúde e 240 internações. Apesar disso, não há números oficiais de pessoas que deixaram o vício. "É diferente da infecção, que pode ser curada. O dependente terá de administrar para sempre o vazio deixado pelo crack", diz o médico Antônio Sérgio Gonçalves, gerente do Caps AD centro. Um dos efeitos visíveis do programa foi que a concentração dos agentes públicos na região acabou dispersando os dependentes para outros bairros da região central. Se no começo eles circulavam entre Campos Elísios e República, agora estão também em Santa Cecília e Higienópolis.

Campanha. A nova iniciativa interministerial deve atuar em três frentes (prevenção, combate e tratamento), com medidas como a instalação de 11 postos de fronteira para combater o tráfico. As ações imediatas incluem uma campanha nacional de conscientização sobre a droga e a promoção de cursos de especialização para profissionais de Saúde.

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