Pai e madrasta de Isabella se defendem em carta, diz TV

Além das cartas, a TV Record também exibiu oito fotografias da criança com o casal

Paulo R. Zulino, estadao.com.br

03 de abril de 2008 | 11h21

O pai da menina Isabella de Oliveira Nardoni, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá, escreveram cartas nas quais se dizem inocentes em relação à morte da garota. As cartas foram reveladas nesta quinta-feira, em reportagem da TV Record. As cartas teriam sido escritas à mão e teriam sido feitas antes da decretação oficial da prisão dos dois.   VEJA TAMBÉM O que se sabe até agora sobre o caso "Só quero que seja feita justiça", diz mãe de Isabella   Além das cartas, a emissora também exibiu oito fotografias da criança com o casal. Numa delas, ela aparece ao lado do pai e em outra com a madrasta, sugerindo um bom relacionamento entre todos. Veja abaixo a íntegra das cartas divulgadas durante a programação da Record.   A carta do pai   "Eu, como pai de três filhos, posso dizer, sem dúvida, uma coisa, que a Isabella é o maior tesouro da minha vida. Tenho outros filhos meninos, mas a minha menininha era a princesa da casa. A Isabella sempre foi muito carinhosa comigo e com os irmãos dela. Costumava dizer que era a mamãe de meu filho mais novo, o Cauã, e defendia o (filho) do meio, Pietro, acima de tudo. Quando me dei conta que tinha perdido minha Isabella, senti naquele momento que o meu mundo acabou, não sei como caminhar. Todos estão me julgando sem ao menos me conhecer. Não faria isso com ninguém, muito menos com minha filha. Amo a Isabella incondicionalmente e prometi a ela, em frente ao seu caixão, que, enquanto vivo, não sossego enquanto não encontrar esse monstro (assassino da filha). Tiraram a vida da minha princesa de uma maneira trágica e não me permitem sentir falta dela, pois me condenam por algo que não fiz. Minha filha como os irmãos dela são tudo na minha vida. Estou sem rumo, mas confio que Deus me dará forças para vencer esses obstáculos, mostrando o caminho certo para a Justiça. Quero minha filha bem, em paz, e tenho plena certeza e a consciência tranqüila do meu amor, o amor que tenho por ela, pois, por mais que me julguem, só eu e minha filhinha sabemos a dor que estamos sentindo. E o mais importante é que Isa sabe o pai que fui para ela. Minha mãe está à base de calmante por falta do nosso botão de rosa. Meu pai chora quando lembra dela e quando assiste a cada reportagem. Minha irmã e minha mãe choram pelo que estão fazendo. Tenho muito mais a dizer, mas espero que, um dia, me escutem como um pai que sofre por sua filha e não como um monstro, que não sou. Nós não tínhamos feito nenhuma declaração ainda porque acreditávamos que o caso seria solucionado. Nós não somos os culpados e ainda encontrarão o culpado. Desta forma, não precisaríamos mostrar nossa imagem porque o nosso sofrimento é muito grande. Só que nos acusam e queremos mostrar o que realmente estamos sentindo. A verdade sempre prevalecerá".   A íntegra da carta de Anna Carolina   "Sei que a palavra madrasta pesa ao ouvido dos outros, mas, para Isa, sei que eu era a tia Carol. Amo ela, como amo aos meus filhos. Tenho minha consciência tranqüila do carinho com que sempre a tratei. Ela adorava me ajudar a cuidar dos irmãos e até ensinou o mais novo a andar. Ele trocava meu colo para ficar com ela. O Pietro chamava Isa todos os dias e só passou a ir à escola quando a Isa estudava lá. Adorava fazer de tudo para agradá-lo. Ela e o Pietro ligavam sempre para que eu a buscasse. Brincávamos ela, eu e o Pietro de musiquinhas, ciranda e casinha. Eu, o Alexandre e minha sogra fizemos o quarto dela como ela sempre sonhou. Compramos um baú, ela adorava as princesas da Disney e compramos um abajur. Mas, acima de tudo isso, o carinho era o que mais contava. Então, o que tenho a dizer é que Isabella era tudo para todos nós e tenho fé que encontraremos quem fez essa crueldade com nossa pequena. Não tínhamos dado nenhuma declaração, pois acreditávamos que o caso seria solucionado. Somos inocentes e a verdade sempre prevalecerá".   A expectativa   A expectativa da polícia é de que o casal Nardoni se apresente às autoridades ainda nesta quinta-feira, 3. O  advogado do casal, Ricardo Martins de José Filho, afirmou que os dois devem mesmo se entregar à polícia ainda nesta quinta (veja o que se sabe até agora) . Na quarta-feira, 2, a Justiça decretou a prisão temporária do casal.  A prisão temporária foi decretada para que o casal não prejudique as investigações, que prosseguem tanto na área da polícia científica quanto na busca de novas pistas no prédio, onde ocorreu a morte da menina.   Na manhã de quarta, a mãe de Isabella, Ana Carolina Cunha de Oliveira, prestou depoimento de 2h15 no 9º Distrito Policial, no Carandiru. Após o depoimento da mãe e dos avós maternos de Isabella, o juiz Mauricio Fossen, do 2º Tribunal do Júri do Tribunal de Justiça de São Paulo, decretou o pedido de prisão preventiva do casal. O juiz decretou também sigilo absoluto do caso.   Depoimentos   Durante toda a tarde de quarta-feira, o delegado Calixto Calil Filho esteve reunido com o promotor Sérgio de Assis. O delegado levou ao promotor cópias de depoimentos, como a do morador do 1º andar do edifício onde morreu Isabella, que disse ter ouvido gritos, pouco antes da queda. Segundo ele, os gritos eram: "Pára, pai! Pára, pai!" Também foram levadas cópias dos depoimentos de moradores do Edifício Vila Real, na Vila Mazzei, onde Alexandre morou por dois anos e meio. Ela disse que as brigas de ambos preocupavam o condomínio. O delegado ainda trouxe o depoimento de um funcionário e de dois moradores do Edifício Santa Leocádia, que fica na frente do local da morte. O morador do 4º andar desse prédio afirmou que ouviu o casal discutindo dez minutos antes da tragédia. "Da janela do meu quarto, pude ouvir com minha esposa (...) uma discussão, uma briga no prédio ao lado. Após 15 minutos, a discussão cessou. Às 23h23, ouvi uma mulher gritando: ?jogaram a Isabella do 6º andar?. Em seguida, ouvi xingamentos. A voz da mulher era igual à da mulher que brigava (anteriormente)." A mãe da menina, a bancária Ana Carolina Cunha de Oliveira, de 23 anos, falou pela primeira vez à polícia. "Não tenho nada a declarar, que a Justiça seja feita agora", disse, na saída. De acordo com a polícia, a mãe da criança afirmou que a relação dela com o casal suspeito era, às vezes, áspera. Segundo a bancária, nos fins de semana em que Isabella ficava na casa de Alexandre, a madrasta não a deixava falar com a mãe. Também prestaram depoimento os avós maternos da garota, José Arcanjo e Rosa Maria de Oliveira. Um dos advogados da defesa trouxe ainda uma testemunha que era considerada chave pela defesa. A mulher, que não teve a identidade revelada, entrou escondida debaixo do paletó do advogado. Aos investigadores, ela teria dito que a madrasta perdeu as chaves do apartamento após deixá-las na portaria do prédio. A versão, no entanto, foi contestada, em depoimento, pelo porteiro Valdomiro da Silva Veloso, de 28 anos. Segundo ele, ficavam na guarita apenas as chaves dos apartamentos que estão passando por obras. A delegada titular da 4ª Delegacia Seccional Norte, Elisabete Sato, disse que há conflitos entre os depoimentos já colhidos pela polícia. E, por isso, é necessário ter calma. "Além dos depoimentos, vamos contar com a coleta das provas materiais." Investigadores do 39º DP (Vila Gustavo) acharam nos arquivos um boletim de ocorrência, de 2003, em que Anna Carolina acusa Alexandre de tentativa de agressão.

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