Pai de Eloá era o 'Amarelo' na 'gangue fardada', diz Justiça

Nesta terça, Everaldo dos Santos confessou ser foragido da polícia mas negou ter assassinado Ricardo Lessa

Ricardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2008 | 21h34

"Amarelo". De acordo com a Justiça de Alagoas, seria esse o apelido do pai da adolescente Eloá Cristina Pimentel, o ex-cabo da Polícia Militar de Alagoas Everaldo Pereira dos Santos, dentro da "gangue fardada", uma organização criminosa responsável por vários crimes de pistolagem, assaltos, roubos e desmanches de carros em Alagoas. A gangue fardada recebeu esse nome porque era composta por vários policiais militares, e tinha também a participação de policiais civis.  Veja também:Pai de Eloá nega assassinato, mas confessa que fugiu da políciaPai de Lindemberg diz que o filho tem que pagarCorpo de Eloá é enterrado e 12 mil acompanham a cerimônia'Eu sabia', diz Nayara sobre morte de EloáLeia o depoimento de Nayara após ser libertada por Lindemberg'Eu perdôo Lindemberg', diz mãe de Eloá'Eu lembro que eu dei um na Eloá', diz Lindemberg Lindemberg é transferido para TremembéPolícia Civil investigará ação do Gate  Homem de 25 anos que recebeu rim de Eloá passa bem100 horas da tragédia no ABC Saiba como foi o fim do seqüestro Confira cronologia do seqüestro Galeria com imagens do seqüestro Todas as notícias sobre o caso Imagens da negociação com Lindemberg Alves I  Imagens da negociação com Lindemberg Alves II  Especialistas falam sobre o seqüestro no ABC Eloá, 'uma menina falante'; Lindemberg, 'um trabalhador' Seqüestro em Santo André é o mais longo registrado em SP   A organização criminosa foi desbaratada nos anos 90 em Alagoas, com a prisão do ex-tenente-coronel Manoel Francisco Cavalcante, que se encontra detido em um presídio militar no Rio de Janeiro, depois de passar por vários presídios de segurança máxima do País. Antes de ser transferido para o Rio, Cavalcante cumpria pena em regime disciplinar diferenciado (RDD), no presídio federal de Catanduvas (PR).  "O ex-cabos Cição e Everaldo eram unha e carne. Os dois eram considerados os meninos de ouro do ex-tenente coronel Cavalcante", comentou o juiz Jerônimo Roberto, que atuou no combate à gangue fardada com outros magistrados. Na época, ele e o juiz Helder Loureiro, que também atuou nos processos da gangue fardada, foram ameaçados de morte e tiveram a segurança reforçada, temendo retaliação. Entre os crimes atribuídos aos amigos Cícero Felizardo dos Santos, o Cição, e Everaldo, sob o comando de Cavalcante, está o assassinato do delegado Ricardo Lessa e seu motorista, Antenor Carlota da Silva. Os dois foram executados a tiros na noite de 9 de outubro de 1991, dentro do Monza do delegado. O assassinato ocorreu na Rua Mem de Sá, no bairro de Bebedouro, na porta da casa sogra de Ricardo Lessa, irmão do ex-governador Ronaldo Lessa (PDT), que na época era prefeito de Maceió. Segundo consta nos autos do processo, Ricardo tinha ido com a mulher, Maria José Lopes, até a casa da sogra. Quando a mulher desceu e entrou na casa da mãe para pegar um pedaço de bolo, os pistoleiros chegaram e, antes que ela retornasse para o veículo, o marido e o motorista dele foram assassinados com várias disparos.  O crime foi investigado pelo então delegado Mário Pedro, que indiciou Cavalcante como o mandante do crime e demais integrantes da gangue fardada, entre eles Cição e Everaldo, como os autores materiais. Segundo o delegado, entre as motivações do crime estaria o fato de Ricardo Lessa estar investigando o assassinato de um protegido do fazendeiro José Miguel, morto a facadas dentro da Unidade de Emergência Armando Lages, principal pronto-socorro de Maceió. Quando Ricardo Lessa estava na iminência de revelar os nomes de todos os militares que participaram da invasão do hospital, que resultou na execução do fazendeiro, protegido de José Miguel, recebeu um recado de Cavalcante para abandonar essa linha de investigação, caso contrário poderia se dar mal. O recado teria chegado a Lessa pelo ex-cabo Cição.  "Olhe Cição, você diga ao Cavalcante que se ele sabe matar, eu também sei", afirmou Lessa, conforme consta nos autos. Naquele mesmo momento, o delegado deu um prazo para Cavalcante apresentar os responsáveis pela invasão do pronto-socorro e pela morte do protegido de José Miguel. Consta também que o delegado teria dado um ultimado a Miguel, para que esse também assumisse o crime ou apontasse os responsáveis.  Antes que esse prazo fosse encerrado, Ricardo Lessa foi executado a tiros, junto com seu motorista. O filho do motorista, o policial civil José Cícero Carlota da Silva, também foi assassinado a tiros, em 16 de maio de 1995, após acusar Cavalcante como o mandante da morte do pai e do delegado. A morte de Carlota até hoje está impune.  No entanto, com base nas investigações policiais, o promotor de Justiça Dennis Lima Calheiros, ofereceu denúncia contra nove indiciados. Foram denunciados também os sargentos José Luiz da Silva Filho e José Carlos de Oliveira; e os soldados Edgar Romero de Morais Barros, Aderildo Moriz Ferreira e Valdomiro dos Santos Barros, além do "chumbeta" Valmir dos Santos.  O fazendeiro José Miguel não foi denunciado pelo assassinato de Ricardo Lessa, mas também teve um trágico fim: foi assassinado a tiros, junto com a mulher, no dia do seu aniversário, no sertão alagoano, em 1999. Em setembro de 2008, mais de dez anos depois do crime, apesar de jurar inocência, o fazendeiro Laelson Boiadeiro foi condenado a 39 anos de prisão pelo assassinato de José Miguel e sua esposa Matilde Toscano. Seus advogados recorrem na tentativa de anular a sentença.

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