Pai de dentista duvida da punição dos culpados

Além de defender pena maior para jovem infrator, ele pede que a Justiça não seja benevolente, 'para que o crime não se repita'

Entrevista com

ANDRÉ CABETTE FÁBIO, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2013 | 02h01

O desenhista industrial aposentado Viriato Gomes de Souza é cético quanto à punição dos culpados pelo assassinato de sua filha, a dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza, de 47 anos, incendiada por um adolescente de 17 na quinta-feira. "Não tenho garantia de punição, porque sempre tem um recurso, uma medida cautelar. É tanta coisinha que aquilo (a sentença) vai empurrando, como tem acontecido com tantos casos", disse.

Na madrugada do sábado, foram presos três dos quatro suspeitos do crime. Eles teriam admitido a autoria do assassinato à polícia. De acordo com as autoridades, o bando dominou Cinthya na clínica. Miguel Souza Silva, de 24 anos. o líder dogrupo, e um adolescente - sob efeito de cocaína - a mantiveram presa enquanto Jonatas Cassiano Araújo, de 21 anos, foi sacar dinheiro de sua conta. Avisado por celular de que ela só tinha R$ 30, o adolescente ficou irritado e ateou fogo na dentista. Outro suspeito, responsável pela fuga, ainda está foragido.

O adolescente envolvido completa 18 anos em junho. O caso já é usado por autoridades paulistas como argumento a favor do aumento de pena para jovens infratores, conforme proposta levada a Brasília pelo governador Geraldo Alckmin.

Qual a expectativa do senhor quanto à punição dos culpados?

Nos processos criminais tem aquele vai e vem, surgem novas testemunhas para empurrar com a barriga (atrasar). Depois, desfazem o depoimento; simplesmente chegam lá e dizem "eu quero um novo testemunho", como no caso Bruno e companhia limitada. Tem muitos recursos dentro da lei.

O que gostaria que acontecesse com os acusados?

Espero que sejam punidos dentro do rigor da lei. Não chego com revolta, mas não vou dizer que ele (o assassino) está perdoado. E, mesmo se eu disser, não espero que a Justiça seja benevolente, mas que ele arque com sua responsabilidade. Não é um sentimento de vingança, é de justiça. Se houver justiça, isso vai dificultar a prática de outros crimes. Caso tenha uma justiça frouxa, fraca, benevolente, isso reforçará mais a vontade de praticar o crime. Se for punitiva e justa, ela vai dar uma brecada (no crime), com certeza.

O que o senhor acha de um adolescente ser apontado como participante do assassinato?

Não sei se é uma fuga da lei. Mediante a presença de um menor, geralmente jogam a responsabilidade nele. Ele aguarda em um sistema prisional diferenciado. Em contrapartida, pode votar aos 16 anos. Atualmente, a lei é participativa nesse tipo de delinquência, porque não a trata como um crime até que o culpado atinja a maioridade. O Legislativo tem de se sensibilizar e mudar a lei para não ser benevolente com quem pratica um crime.

E como fica a vida da sua família? A Cynthia é apontada como quem mantinha a casa...

Aqui tudo era família. Agora vamos ter de conviver com isso, porque eu e minha esposa somos aposentados. Sou desenhista industrial e contribuí por 38 anos para a minha aposentadoria. Hoje vivo com esses recursos e, com 70 anos, é difícil o mercado de trabalho. Agora vamos ver como vamos fazer para nos manter...

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