SERGIO CASTRO/ESTADÃO
SERGIO CASTRO/ESTADÃO

Acusado de mandar matar filha no crime do Papai Noel pega 10 anos

Réu vai recorrer em liberdade; publicitária foi baleada em 2007 por um PM fantasiado, que teria sido contratado pelo pai da vítima

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

02 Fevereiro 2017 | 18h22
Atualizado 02 Fevereiro 2017 | 19h07

SÃO PAULO - Mais de 15 anos após o crime, o empresário Renato Grembecki Archilla, de 58 anos, foi condenado pelo tribunal do júri nesta quinta-feira, 2, a 10 anos, 10 meses e 20 dias de prisão em regime fechado por encomendar o assassinato da própria filha, a publicitária Renata Guimarães Archilla, em dezembro de 2001, no chamado "Crime do Papai Noel". O réu, no entanto, vai recorrer em liberdade e saiu pelos fundos do Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo.

Por seis votos a um, o Conselho de Sentença decidiu que Archilla é culpado por tentativa de homicídio duplamente qualificado (motivo torpe e recurso que dificultou a defesa da vítima), além do agravante de ser pai da vítima. Na sentença, a juíza Débora Faitarone, da 1ª Vara do Júri, também indeferiu o pedido de prisão. "O crime ocorreu há 16 anos. O réu é primário. De bons antecedentes. Possui ocupação lícita e residência fixa. Não se furtou, em nenhum momento, à aplicação da lei penal", diz a decisão.

O advogado de defesa Rodrigo Senzi apelou da sentença. "A decisão dos jurados contraria as provas dos autos", afirma. Já o assistente de acusação, o advogado Marcial de Hollanda Filho, diz que vai recorrer da pena fixada pela juíza. "O autor do disparo, sem agravante de ser o pai, pegou 13 anos", justifica. Em 2008, Archilla chegou a passar cerca de dois meses preso, mas foi solto após pedido de habeas corpus.

O julgamento, que durou dois dias, foi marcado pelo depoimento de Renata, de 37 anos, vítima que sobreviveu a três disparos de arma de fogo, dois deles no rosto, em um semáforo na região do Morumbi, na zona sul da capital, no dia 17 de dezembro de 2001. Na época, ela tinha 22.

Emocionada, chorou ao menos sete vezes ao falar para os jurados. "Eu vou poder virar a página da minha vida e ser feliz com a minha família", disse a publicitária, que hoje é casada e tem dois filhos.

Com um terço sempre nas mãos, Renata assistiu da plateia à fase de debates entre acusação e defesa, nesta quinta. Só saiu do plenário nas vezes em que o advogado Rodrigo Senzi tentou desconstruir a versão apresentada pela vítima. Já durante a fala do promotor Felipe Zilberman, parecia querer endossar a acusação, levantando o terço à altura dos olhos e rezando.

No dia anterior, Renata também acompanhou o interrogatório do pai, mas do lado de fora do plenário. Encostada na porta, ouviu o réu declarar inocência. "Nunca faria isso com a minha filha", disse Archilla. "Nunca vi uma filha querer o mal do pai, como ela quer o meu." Na saída do fórum, após leitura da sentença, Renata chorou mais uma vez. "A Justiça foi feita."  

Julgamento. Na fase de debates, o Ministério Público de São Paulo (MPE) apresentou como principal prova de acusação uma agenda telefônica do policial militar José Benedito da Silva, já condenado por ser o autor dos disparos contra Renata.

Nela, constava o telefone da fazenda do avô da publicitária, já falecido, que também era acusado de ser mandante do crime. Também havia o número de outro PM que trabalhou como segurança da propriedade, segundo provas apresentadas nos autos. "Foi uma monstruosidade cometida por um assassino a mando de outro", disse Zilberman.

A promotoria explorou as dificuldades que Renata enfrentou para ter a paternidade reconhecida por Archilla, em uma ação judicial travada por 12 anos. Para os jurados, Zilberman também usou aspectos religiosos: citou a Bíblia, disse que "Deus está vendo tudo isso" e que Renata foi salva pelo "anjo da guarda" - a mãe dela, que morreu de câncer antes do atentado. "Não foi a primeira tentativa de por fim à vida de Renata. Quando ela ainda estava no ventre materno, ele (Archilla) pressionou por aborto."

Por sua vez, a defesa do réu acusou a promotoria de tentar fazer um julgamento moral. "Não é o caráter do Renato que está em julgamento aqui. Ele é acusado de um crime grave, uma tentativa de homicídio, que não cometeu", afirmou Senzi. 

Ao júri, Senzi disse ainda que não havia elementos que ligassem o autor dos disparos ao pai de Renata. "Não foi um crime encomendado", afirmou. "Desde quando crime neste País precisa de motivo?", questionou o advogado, para depois listar seis assassinatos célebres de exemplo. Entre eles, os casos Champinha e do casal Nardoni, que também terminaram em condenação.

 

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