Padre diz que fechará igreja com Portinaris

Ele reclama de abandono do poder público e pede restauro de acervo de US$ 30 mi

Rene Moreira, especial para O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2012 | 03h03

O padre Pedro Bartolomeu, da Igreja Senhor Bom Jesus da Cana Verde, no centro de Batatais, interior paulista, está indignado. À frente da paróquia que abriga um acervo de Candido Portinari avaliado em US$ 30 milhões, ele ameaça fechar as portas. Mais de 3,5 mil turistas que passam pelo local todos os meses deixarão de ver obras como A Sagrada Família - quadro avaliado em mais de US$ 4,5 milhões.

O problema, segundo ele, é o abandono do poder público, que se nega a restaurar as obras. Algumas delas já têm furos feitos por cupins, ranhuras e problemas na tinta. Se nada for feito, o padre garante que vai fechar o templo para visitação, para evitar que os estragos aumentem. A igreja seria aberta apenas para missas.

Bartolomeu culpa a prefeitura pelo abandono das obras. Ele conta que uma ação civil pública foi aberta para obrigar o município a arcar com o custo do restauro e, em 2010, houve uma audiência pública. Aparentemente, o caso caminhava para a solução, mas o prefeito José Luis Romagnolli (PTB) recorreu e conseguiu paralisar o processo.

A alegação é de que o município não pode pagar a restauração das obras porque elas seriam da Igreja Católica. O religioso rebate e argumenta que essa é uma forma de protelar os serviços.

Patrimônio. Segundo padre Bartolomeu, 14 das 23 telas que estão na igreja foram tombadas e é obrigação da prefeitura arcar com a recuperação. Ele se baseia no fato de que, por ser estância turística, o município recebe verba do governo estadual para incentivar o setor. Como as obras de Portinari são uma atração, seria obrigação da cidade pagar a restauração, estimada em R$ 300 mil por um ateliê de São Paulo.

De acordo com o padre, Batatais recebe cerca de R$ 2 milhões do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento das Estâncias (Dade) para investir no turismo. "Esse é o motivo da nossa indignação", diz o religioso.

A indignação do padre contagia. Antônio Otávio Squalise atua há 33 anos na igreja orientando os visitantes e fornecendo informações sobre as obras. Ele também culpa a prefeitura e diz que o descaso se acentuou nos últimos anos. "Fechar a igreja seria uma perda enorme."

Pelo menos três obras estão com problemas graves na igreja, que tem alarmes e guarda 24 horas para vigiar o patrimônio milionário. A Sagrada Família apresenta dois furos causados por cupins e intempéries do tempo, além de ranhuras.

Procurado para falar sobre o caso, o prefeito José Luis Romagnolli não quis se manifestar e avisou que não pretende responder às críticas do padre. Romagnolli também acumula o cargo de secretário do Turismo, pasta responsável por assuntos como o que envolve as obras do pintor.

Antes de se afastar, o titular Antônio Carlos Correia, que deixou o cargo para disputar a reeleição, chegou a culpar o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) de dificultar o início dos trabalhos de restauro, que nas contas da prefeitura custaria o dobro, R$ 600 mil.

Longa espera. Em 4 de abril, o Estado noticiou que um especialista do Iphan visitaria Batatais para inspecionar a igreja. O ateliê de São Paulo, segundo o padre, já teve aval do órgão para fazer a restauração.

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