Padrasto de Joaquim tem traços de psicopata, diz especialista forense

Professora cita vício em cocaína, hiperatividade e facilidade de mentir; Longo é principal suspeito da morte da criança

Ricardo Brandt, enviado especial, O Estado de S. Paulo

18 Novembro 2013 | 16h46

RIBEIRÃO PRETO - Três traços do perfil psicológico que a Polícia Civil monta do padrasto Guilherme Rayme Longo, de 28 anos, principal suspeito do assassinato do menino Joaquim Ponte Marques, de 3, na madrugada do dia 5, em Ribeirão Preto, são característicos de um psicopata, segundo a professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas Maria de Fátima Franco dos Santos, que tem 30 anos de experiência em psicologia forense. Longo e a mãe da criança, Natália Ponte, de 29 anos, estão presos desde o dia 10, quando o corpo foi encontrado, após ter supostamente desaparecido de casa.

Maria de Fátima afirma que o vício em cocaína, a hiperatividade e a facilidade de mentir são típicos de um psicopata. "Um psicopata não é doente, tem um desvio de comportamento, sabe perfeitamente o que está fazendo e pode responder por isso. Matar uma criança indefesa, depois esconder o corpo, é um crime típico de um psicopata."

Nos depoimentos que ouviu até agora, o delegado Paulo Henrique de Castro chegou à conclusão de que o padrasto era agressivo, mas passava para os outros uma imagem de pessoa calma. Nesta segunda-feira, 18, ele ouve novamente o depoimento do casal e tenta determinar a participação da mãe no crime.

Além de ter admitido agressão a uma pessoa durante internação em uma clínica para viciados, onde conheceu a mãe de Joaquim, que era psicóloga do local, há depoimentos dela relatando ameaças, agressões - contra ela, contra dois homossexuais e contra a própria mãe.

Longo lutava jiu-jítsu e competiu durante a adolescência em Minas Gerais, onde morou. "Ele nunca foi agressivo, sempre foi um menino amoroso", conta sua mãe, a professora Augusta Rayme Longo, de 56 anos.

Ela admite que ele sempre exigiu atenção especial entre os três filhos do casal, por causa da hiperatividade.

Na academia em que Longo treinava, em Ribeirão Preto, colegas relataram ao Estado o envolvimento do suspeito também com agressões contra travestis para roubar dinheiro para comprar drogas. "A droga, principalmente as estimulantes, não é causa. Ela só deixa aflorar a raiva e agressão que estão contidas na pessoa", analisa a especialista forense.

Segundo a psicóloga, a hiperatividade também é um traço comum nos psicopatas. "Para os pais, sob forte emoção, é natural que eles tenham o impulso de omitir certos dados para proteger aqueles que amam", diz Maria de Fátima.

O envolvimento de Longo com drogas começou depois dos 20 anos, mas se agravou depois que ele passou quase dois anos morando na Irlanda, segundo seus pais. Desde que voltou ao Brasil, Longo foi internado em pelo menos três clínicas para viciado e chegou a frequentar o Narcóticos Anônimos (NA).

"A mentira, a facilidade de inventar uma história bem montada fazem parte do perfil do psicopata. Quando ele diz que saiu para comprar cocaína em uma recaída e voltou sem, ele mente. Um viciado em crise que sai de casa para buscar a droga não volta sem", afirma a especialista.

Na madrugada do dia 5, quando Joaquim morreu, Longo e Natália contaram à polícia que ele desapareceu de casa sem que ninguém visse. Naquela noite, o padrasto diz ter colocado a criança na cama por volta de meia-noite, enquanto a mãe dormia, e saiu para comprar cocaína a pé.

Quarenta minutos depois, voltou sem encontrar o entorpecente.

Um dia antes, ele havia sido internado em um hospital depois de tomar uma cartela inteira de um calmante, após o uso de cocaína.

Contradições. Os depoimentos do casal estão repletos de contradições, afirma o delegado. Desde que foram presos, Longo e Natália passaram a contar versões conflitantes sobre a relação do casal e sobre a dinâmica dos fatos no dia do crime.

"Há contradições entre o que eles contam. Alguém está mentindo", afirmou o delegado. A polícia não tem dúvida que Joaquim foi assassinado antes de ser jogado no rio. A outra certeza na investigação é que Longo caminhou com o corpo da criança e jogou o corpo em um córrego.

A tese da polícia é que o menino foi morto por uma superdosagem de insulina - ele era diabético. A mãe declarou ter visto Longo pesquisando sobre insulina na internet e que na semana do desaparecimento ele contou a ela que se autoaplicou duas doses da insulina de Joaquim. Depois, disse que eram 30. "O Guilherme montou uma história bem montada, curta, mas difícil de pegarmos contradição", afirmou o delegado.

Cronologia do caso:

 5 DE NOVEMBRO

Joaquim Ponte Marques, de 3 anos, desaparece de casa, em Ribeirão Preto, durante a madrugada, após ser colocado para dormir pelo padrasto, por volta da meia-noite, segundo a mãe, a psicóloga Natália Ponte, de 29 anos. Eles afirmam não ter saído de casa. Um dia antes, o padrasto Guilherme Rayme Longo, de 28, foi internado após tentar o suicídio tomando uma cartela de calmante.

DIA 6

A Polícia Civil pede a prisão do casal por contradição. Um cão farejador aponta que Guilherme e Joaquim percorreram a pé o trajeto de casa até um córrego. O padrasto afirma ter saído de casa a pé depois da meia-noite, sem que a mulher visse, para comprar cocaína - ele é viciado - e voltado 40 minutos depois sem encontrar a droga.

DIA 7

A Justiça nega o pedido de prisão do casal e o desaparecimento ganha repercussão nacional. A cidade comovida se envolve nas buscas. A polícia revela que o menino pode estar morto e que o corpo teria sido jogado em um rio.

DIA 8

A polícia pede a quebra do sigilo telefônico do casal e de parentes. O padrasto afirma ter trocado dias antes o telefone celular por quatro cápsulas de cocaína.

DIA 10

O corpo de Joaquim, em decomposição, é encontrado boiando no Rio Pardo, em Barretos, a cerca de 150 quilômetros de Ribeirão. A Justiça decreta a prisão temporária do casal por 30 dias

DIA 11

Imagens das câmeras de segurança mostram no trajeto feito pelo cão farejador uma pessoa passando com um pano no colo e voltando sem ele depois. Natália presta depoimento e revela que o padrasto era agressivo e tinha ciúmes de Joaquim. Ela afirma também que ele disse ter se autoaplicado 30 doses da insulina no menino

DIA 13

O padrasto presta depoimento e nega participação no crime. Ele diz que aplicou nele mesmo as 30 doses de insulina para conter a vontade de usar cocaína. Longo nega também as agressões a Natália

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