Tasso Marcelo/AE
Tasso Marcelo/AE

Pacificadas, favelas do Rio de Janeiro já vivem boom imobiliário

Áreas com Unidades de Polícia Pacificadora se valorizam e custo de vida preocupa moradores

Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

Um ano e nove meses após a instalação da primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no Morro Dona Marta, em Botafogo, na zona sul do Rio, os 123 policiais que ocupam a favela não deram um tiro, o livre acesso é um fato e o preço do aluguel dobrou. O ritmo de reforma e ampliação de casas é acelerado.

Na quarta-feira, moradores carregavam nas costas até as 22h30 sacos com material de construção do alto do morro, onde fica a sede da UPP. A major Pricilla de Oliveira, que comanda a unidade desde o início, confirma que a cena virou rotina.

Para ela, o aluguel de novos cômodos é hoje uma forma de aumentar a renda de algumas famílias. "Tem chegado bastante material. Quem tinha uma laje está aproveitando a valorização. O aluguel virou uma forma de gerar dinheiro. Além da carência de lugares, o preço aumentou", diz a major. "Um morador vai pedir R$ 400 pela casa de um cômodo. Quando eu cheguei, custava R$ 200. Tem até turista morando aqui."

Morador da favela e um dos responsáveis pela Rádio Santa Marta, o MC Fiell diz que é preciso "fazer mágica para sobreviver com as novas taxas". Antes da UPP, não se pagava por luz, água e TV a cabo. Agora há novos postes e relógios de cobrança por todos os becos. "O salário mínimo dá no máximo para almoçar, jantar e pagar o aluguel. Não falei de café, remédio, luz, água. Se querem mesmo manter os moradores nas suas favelas, as taxas precisam baratear."

O governo do Estado reconhece o risco de haver uma "remoção branca" nas favelas pacificadas. "O morador de algumas favelas aguentou ficar ali com o tráfico, com a polícia violenta, enfrentou políticas de remoção, passou por mil coisas", diz a coordenadora do projeto UPP Social, Silvia Ramos. "Seria muita ironia do destino se agora, com as UPPs, eles não aguentassem e tivessem de sair."

Para ela, esse risco é maior nas favelas da zona sul, onde a especulação imobiliária é grande e quase não há espaço para construções. "Estamos discutindo com vários agentes privados o ritmo de cobrança. Uma das formas de reduzir a pressão é ampliar as UPPs. Se não tiver escala, o risco de que as dez atuais voltem atrás é muito grande. Na hora em que tiver 50 favelas com UPP, isso diminui", diz Silvia.

Na UPP Babilônia e Chapéu Mangueira, no Leme, zona sul, o capitão Felipe Magalhães, que comanda a unidade, chega à sede no alto do morro perguntando se "o telefone voltou". O grau de preocupação com o eventual retorno de grupos armados parece reduzido na escala de problemas cotidianos. Lá havia até policial desarmado. "Já dá para ter essa confiança", diz um sargento. "Ando desarmado também, mas não é bom facilitar", comenta o capitão. Ele aboliu o uso de fuzis dentro da favela - o armamento de guerra é mantido apenas em uma contenção no pé do morro.

"O tráfico agora é uma boca banguela com um dente só. É para consumo interno, no sapatinho. Ninguém sabe onde fica", conta o cabeleireiro e pastor Fabiano Moura, que se diz ex-viciado. A feijoada que ocorre uma vez por mês na quadra principal é um termômetro das mudanças. "Hoje a maioria já não é de moradores", diz o capitão. "Alguns solteiros de bairros da zona sul têm procurado apartamento aqui." Além do preço do aluguel, a favela é um dos poucos lugares na redondeza onde se pode comer bem por R$ 7 - com direito a vista da praia.

No Cantagalo, em Copacabana, Diogo, de 11 anos, brinca com uma arma de plástico. "Aqui está ótimo, não tem mais tiroteio. As crianças brincam à vontade e a gente tem sono tranquilo", diz a mãe, Andrea de Souza, que vende chinelos.

Já na Cidade de Deus, um morador reclama de abuso policial. Lá a situação é mais tensa. São 318 policiais. A dona de uma birosca conta que a UPP foi "uma bênção" e tem vontade de dar um pedaço de bolo para policiais, mas teme represálias. "Com certeza tem gente que ainda fica de olho. Não vou dizer que não tenho medo. Eles (os policiais) podem não estar aqui amanhã, mas eu vou estar."

Na Providência, policiais bebem refrigerante ao lado do bar que, segundo eles, ainda pertence à irmã do traficante que mandava no morro. "A gente só compra na padaria", diz um deles. E o pessoal do tráfico que não foi preso? "O bico agora é carregar compras na escadaria." Após cinco meses, moradores "já estão apertando a mão". "No começo não davam nem bom dia."

Para o governo, o número de pessoas envolvidas com tráfico que saíram das favelas pacificadas é "impressionantemente baixo". "No Dona Marta foram 12. O chamado núcleo duro, quem tinha mandado de prisão ou posto muito alto. Nas outras foi mais ou menos isso. O que não consigo saber é o número dos que ficaram, se foram 20, 30 ou 100. Vamos ter uma espécie de radar para tentar captar as necessidades e fazer o acompanhamento um a um", diz Silvia.

No Dona Marta, as iniciais do Comando Vermelho estão marcadas na recém-instalada placa turística no alto do morro, com informações em inglês. "São sequelas que o tráfico infelizmente deixa", conta Pricilla.

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