Ouvidoria investiga ação de policial civil em morte de jovem

Testemunhas prestaram queixa e informaram que rapaz foi executado no Campo Limpo; Secretaria diz que houve confronto

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

10 de março de 2015 | 19h12

SÃO PAULO - Moradores da comunidade Vila Nova Pirajussara, no Campo Limpo, na zona sul da capital, estiveram nesta terça-feira, 10, na Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo para denunciar a morte de um jovem de 21 anos, que teria sido executado por um homem que se apresentou como policial civil. A vítima, Rony Augusto dos Santos, foi atingido por dois disparos na cabeça, segundo as testemunhas. O caso ocorreu na tarde de ontem. A Secretaria Estadual de Segurança Pública informou, em nota, que a morte ocorreu após troca de tiros, versão que foi apresentada pelo policial em depoimento.

"A vítima é um rapaz que entregava marmita na comunidade. Na saída da viela, sem chance de reação do Rony, ele (o policial) deu dois tiros na cabeça dele. Os moradores se manifestaram, porque sabiam que ele era pessoa idônea", disse uma das testemunhas, um homem que preferiu não se identificar.

Outra testemunha, que também não se identificou, disse que viu o momento do disparo e que conhecia o jovem morto. "Eu dei um grito. Ele nasceu e cresceu na comunidade. Não tinha vício e gostava de fazer viagens."

Uma terceira testemunha disse já ter visto o policial, identificado como Moisés Elias da Silva, segundo a Ouvidoria, circulando pela região. "Ele já me abordou uma vez, perguntando se eu era traficante e eu falei que era trabalhador, estava até com a roupa do serviço."

De acordo com as testemunhas, Santos chegou a ser levado para o Hospital Municipal do Campo Limpo, mas não resistiu aos ferimentos. No dia da morte do jovem, moradores fizeram dois protestos na Estrada do Campo Limpo e registraram um boletim de ocorrência no 37º DP (Campo Limpo).

Policiais civis, incluindo Silva, também fizeram um boletim de ocorrência, mas com outra versão. Segundo eles, houve uma denúncia de tráfico de drogas na região e, durante uma operação, os policiais encontraram um grupo suspeito. O BO diz que Santos tentou escapar e efetuou um disparo. Na sequência, ele foi atingido por um tiro dado pelo policial.

Em nota, a Secretaria Estadual de Segurança Pública repetiu a versão, acrescentando que os policiais foram recebidos a tiros e revidaram. "Com o rapaz baleado, foram apreendidos R$ 1.163 e um revólver calibre 38. Outro homem acabou preso em flagrante com drogas", informa o comunicado.

Excesso. O ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo Julio Cesar Fernandes Neves disse que houve excesso na ação do policial. O caso será apurado pelo órgão.

"Nós vamos oficiar o Ministério Público para que acompanhe o caso e também a Polícia Civil. De qualquer forma, o cidadão que deu o tiro extrapolou a postura da atividade policial. O policial tem de prender, e não julgar e sentenciar. Ele tem de responder por essa conduta errada."

A Secretaria Estadual de Segurança Pública não informou quais medidas devem ser adotadas em relação à conduta do policial nem se ele já responde a algum processo na Corregedoria da Polícia Civil.

Neves diz que, entre 1º de janeiro e 28 de fevereiro deste ano, foram registrados 118 casos de mortes em confrontos na Ouvidoria. A secretaria diz que não houve aumento da violência policial e informou que foi registrado um crescimento de 52% no número de confrontos em 2014, em relação ao ano de 2013. "Ela foi motivada pela chegada mais rápida da polícia às ocorrências e pelo maior poder de fogo dos criminosos."

A pasta disse ainda que "não tolera desvios de conduta e, nos últimos quatro anos, demitiu e expulsou das polícias 1.771 servidores".

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