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Outros caminhos

Nós tememos as más influências, mas a maldade não é detentora do poder de contágio; somos influenciados o tempo todo pelo nosso entorno

Daniel Martins de Barros *, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2018 | 05h00

Conversei certa vez com a mãe de um rapaz desconfiada de que o filho estava fumando. Ela achava que não, e orgulhosa dizia ser ele o único não fumante em uma turma de dez amigos. Todos os outros fumavam. Delicadamente eu disse que ele também fumava, só não tinha confessado ainda. Apesar de seu ceticismo, o tempo cuidou de revelar a verdade. Ele também fumava. Meio óbvio, até. Não existe o bonzinho da máfia. É difícil encontrar um sedentário na turma dos atletas. Ou um vagal entre os CDFs. Nós tememos as más influências, mas a maldade não é detentora do poder de contágio. Somos influenciados o tempo todo pelo nosso entorno, seja por comportamentos bons, ruins ou mesmo neutros.

Você (ou sua esposa) estava de branco no casamento? Em sua casa é comum comer pão pela manhã? Quantos beijinhos no rosto você dá ao cumprimentar alguém? Com muito mais frequência do que imaginamos nosso comportamento é moldado pelo contexto social. E às vezes parece tão natural seguir aquele curso que sequer questionamos se é algo que gostaríamos mesmo de fazer. 

Quando estava com 5 anos, meu filho disse que era são-paulino. Até então corintiano como eu, amigos e primos o estavam levando a querer mudar de time. Só esse desejo já poderia ter me dado pista de que eu não tratava o assunto muito a sério em casa. Mas mesmo sem me importar tanto com futebol, tentei demovê-lo da ideia.

“Ah, mas o papai é corintiano. Você vai querer mudar? Continue corintiano.” Assim, sem gastar energia, mas agindo como se aquilo fosse o certo – pais e filhos torcendo para o mesmo time, como deve ser. (Detalhe que eu mesmo mudara de time quando criança – a família toda são-paulina e eu virei corintiano por causa dos vizinhos). Semanas depois, percebi que ele estava incomodado com a situação, parecia mesmo querer mudar de time. “Filho, você pode torcer para quem quiser. O papai não liga. Mesmo.” 

Foi um abrir de olhos. Pela primeira vez percebi que não ligo a mínima para futebol. Não é que me importo pouco. É uma indiferença quase total. Eu que passei a vida dizendo que torcia pelo Corinthians percebi que não é verdade. Olhando para trás as coisas fizeram sentido. Eu não acompanho os campeonatos. Não conheço os jogadores. Não sei quando tem jogo, muito menos qual foi o resultado. A rigor, portanto, não sou corintiano. Não sou nada. Não ligo. Foi como sair do armário.

Fiquei pensando nos homossexuais que demoram para assumir sua orientação afetiva. Dá para entender. Quando as convenções sociais do entorno são muito rígidas e explícitas, é difícil agir em desacordo. Não é uma questão apenas de ir contra. Por muito tempo a pessoa pode nem notar que aquele padrão não é adequado para ele. Acredita tanto que o certo é homem casar com mulher, por exemplo, que nem considera a existência de outras possibilidades para si mesmo. Sair do armário fica muito mais difícil quando não se sabe que está dentro dele para começo de conversa. 

Por isso quando o entorno é menos rígido, quando outras atitudes ou comportamentos são socialmente legitimados, mais gente se sentirá à vontade para seguir outros caminhos. 

E a Copa? Talvez isso explique o atual desinteresse do brasileiro pela Copa. Não sei se tem a ver necessariamente com política, corrupção, golpe ou Lava Jato, como muitos disseram. Pode ser que o brasileiro esteja saindo do armário. Num ambiente em que fica mais claro que nem todo mundo é obrigado a gostar de futebol, que a paixão nacional não é assim tão apaixonante ou tão nacional, mais gente diz não estar preocupada com a Copa. Não sei se as pessoas acham o campeonato irrelevante diante dos escândalos políticos ou das dificuldades econômicas. Talvez o achem irrelevante apenas. Ponto. Só não lhes tinha caído a ficha.

Isso é diferente de torcer contra. Pelo menos no meu caso, a indiferença não me faz dar de ombros a ponto de desejar a derrota da seleção. O fato de não me importar muito com o resultado não me impede de desejar sorte para nossos jogadores e mesmo de apreciar um jogo bonito. Até porque tem muita gente que vibra e se alegra. Então vou lá, assistir a estreia com elas. 

* É PSIQUIATRA.

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