Ousar para prevenir

Ações inovadoras na área da prevenção e da saúde sexual dos jovens nos Estados Unidos foram divulgadas nas últimas semanas e mostram como as mudanças de hábitos e costumes dessa faixa da população podem exigir medidas mais ousadas das autoridades.

JAIRO BOUER, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2013 | 02h04

Na mais recente, na Califórnia, adolescentes de 12 a 19 anos podem agora receber kits gratuitos, enviados mensalmente para suas casas, com dez preservativos e lubrificante, além de material educativo. A ideia é facilitar o acesso do jovem à proteção nos distritos com os maiores índices de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs). O piloto do projeto, no ano passado, já despachou mais de 30 mil kits.

Em outra ação, uma campanha publicitária em Chicago espalhou cartazes pela cidade com a imagem de um garoto "grávido", que olha com ar desolado para sua barriga, acompanhada do seguinte slogan: "Inesperado? A maioria das gestações em adolescentes é!" O objetivo é tentar conscientizar os jovens para a importância do sexo seguro e do planejamento para se evitar uma gravidez antes da hora.

Em outra tentativa de reduzir o número de gestações indesejadas, a FDA (agência que regula medicamentos nos EUA), autorizou há algumas semanas a venda de pílula do dia seguinte para maiores de 15 anos, sem necessidade de receita médica. Sabe-se que a contracepção de emergência só funciona se utilizada até 72 horas depois da relação suspeita. A iniciativa visa a agilizar o acesso das meninas à pílula, não tendo de esperar uma consulta com o médico.

Não é de hoje que facilitar o acesso dos jovens às tecnologias que garantam sua saúde sexual e a prevenção da gravidez indesejada acontece nos EUA. Máquinas automáticas que vendem ou distribuem camisinha em escolas, clubes e baladas existem há muito tempo no país. A própria pílula do dia seguinte já podia ser comprada por garotas com mais de 17 anos.

Além disso, há alguns anos, os EUA também aprovaram o uso de vacina contra o HPV (Papilomavírus humano), uma das DSTs mais comuns no mundo, para garotas e garotos dos 9 aos 26, como forma de tentar reduzir os casos de verrugas genitais e de alguns tipos de câncer ligados diretamente à ação desses vírus (colo de útero, vagina, vulva, glande e borda anal).

Essas tentativas de ampliar a proteção do jovem têm uma razão de ser. O sexo tem começado cedo e, muitas vezes, a proteção ideal - com camisinha em todas as relações sexuais e métodos contraceptivos efetivos - está longe de ser uma realidade. O aumento dos casos de DSTs (como gonorreia e sífilis), que podem facilitar a infecção pelo vírus HIV (causador da aids), é outra preocupação.

Enquanto isso, aqui no Brasil, camisinha em escola ainda dá muito dor de cabeça aos educadores. Muitos pais não concordam com a distribuição. Até aulas de saúde e prevenção e kits distribuídos pelos diferentes governos sobre educação sexual têm gerado uma reação exagerada e desproporcional em setores mais conservadores de nossa sociedade.

Não deveria ser assim! Explico: dados do Ministério da Saúde indicam que a metade dos meninos e quase um terço das garotas já teve uma relação sexual completa antes dos 15. Sem informação e longe dos insumos de proteção, o risco de gravidez na adolescência, DSTs, aids e maior predisposição a diversos tipos de câncer voltam a ameaçar o jovem. A gestação na adolescência (apesar da tendência de queda por aqui nos últimos anos) ainda está na faixa de 10% a 15% das garotas engravidando antes dos 18. Metade dos quase 40 mil novos casos de aids notificados em 2012 aconteceu na faixa mais jovem da população.

Já que é muito pouco provável parar a roda (a tendência do início precoce da vida sexual), que tal tornar o caminho mais suave para esses jovens? Ousar nas iniciativas de sensibilização, vencer resistências e ampliar o acesso à proteção efetiva deveria ser função compartilhada por pais, escolas e autoridades em educação, saúde e direitos humanos.

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

 

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