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Fernando Reinach
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Ossos, ossos e mais ossos

A abadia de Pozzeveri está abandonada. Sentada em um gramado em Altopascio, no meio do caminho entre Roma e Milão, ela não chama a atenção. Mas, desde 2011, quem passar por lá vai encontrar dezenas de pessoas deitadas em volta da abadia, com os ombros e braços dentro de buracos. São dezenas de cientistas, de diversas nacionalidades. Estão empenhados em estudar todos os esqueletos de um único cemitério, onde pessoas foram enterradas durante quase mil anos. Um trabalho longo e penoso, mas fascinante.

Fernando Reinach,

11 de janeiro de 2014 | 08h36

A abadia foi construída por volta do ano 1000, quase 500 anos antes da descoberta do Brasil. Desde sua fundação, até o início do século 20, os monges Calmadolese, da ordem dos beneditinos, viveram neste monastério.

O cemitério de Pozzeveri foi escolhido pois está localizado na beira de uma das estradas mais importantes da Idade Média, a Via Francigena. Essa rota comercial, se trilhada em direção ao norte, levava os viajantes a França, Alemanha e Inglaterra. Se trilhada em direção ao sul, a Roma e aos portos italianos onde chegavam e partiam os navios que faziam a rota do Oriente e do Norte da África. Foi por essa via que passaram os cruzados, e foi por ela que as mercadorias do Oriente chegaram ao Norte da Europa.

Durante quase mil anos, entre 1039 e 1850, Pozzeveri foi uma parada obrigatória. Acolhidos pelos monges, os viajantes paravam para descansar e se recuperar. Foram esses viajantes que trouxeram a cultura do Oriente para a Europa. Mas também foram eles que espalharam doenças como a peste, a lepra, a malária e a cólera pela Europa e pelo Oriente.

Pozzeveri pode ser vista como uma espécie de ponte que ligava os dois continentes, pois não havia caminhos alternativos na Via Francigena ao longo dessa região. Durante mil anos, desde a Idade Média, passando pelo Renascimento, parte dos viajantes que passaram por esta ponte morreu e foi enterrada em Pozzeveri. São os esqueletos dessas pessoas que estão sendo estudados.

Nos últimos três anos, os cientistas mapearam as áreas usadas como cemitério ao longo dos séculos. Eles descobriram como o cemitério cresceu, que parte dos prédios foi demolida, construída ou reformada.

As escavações foram iniciadas e estão progredindo simultaneamente em quatro áreas. Duas foram utilizadas entre 1039 e 1400, uma entre 1300 e 1400, e a última, entre 1400 e 1750. Em cada área cada esqueleto é escavado, identificado, sua idade e sexo são determinados, os ossos são medidos e datados usando carbono 14. Finalmente a provável causa da morte é determinada. Os resultados iniciais são impressionantes.

Comparando os esqueletos de monges e viajantes enterrados entre 1039 e 1400 foi possível inferir o efeito da nutrição sobre o crescimento das pessoas (os monges parecem maiores que os viajantes). Com o passar dos séculos, as pessoas também aumentaram de tamanho (a altura média aumentou de 167 cm para 178 cm em mil anos).

Em outra área, onde foram enterradas pessoas mortas entre 1300 e 1400, foram encontrados esqueletos de pessoas que parecem ter morrido durante a peste negra que assolou a região em 1348, um pouco antes de a peste chegar ao resto da Europa. Os cientistas estão tentando sequenciar o genoma das amostras de Yersinia pestis desses esqueletos para saber como este microrganismo se modificou ao longo dos séculos.

Em esqueletos datados entre 1400 e 1600 foram encontrados dentes quase negros. A análise química do esmalte demonstrou que essas pessoas ingeriam mercúrio (um tratamento para sífilis). Os cientistas que estão estudando esses esqueletos são os mesmos que estudaram o esqueleto de Isabella d’Áragona (que tinha sífilis e os dentes negros), a mulher que provavelmente foi retratada por Leonardo da Vinci na Mona Lisa.

Na área datada de 1850 foram encontradas dezenas de esqueletos cobertos por cal e enterrados às pressas, sinal de que outra epidemia passava pela região (provavelmente cólera). A análise do DNA dessas pessoas vai confirmar a causa da morte. Neste caso, a cal formou uma espécie de molde em volta dos corpos e neste molde podem ser observados detalhes do corpo, como o comprimento das unhas, o formato da face e as marcas das roupas.

Os dados obtidos nestes 3 anos ainda são preliminares, pois uma minúscula fração das pessoas enterradas nestes mil anos foi escavada e analisada. Quando o projeto terminar, talvez na próxima década, vamos saber o que é possível descobrir analisando cuidadosamente todos os ossos de um único cemitério. Tal como os livros, os ossos contam histórias, mas, ao contrário dos autores de livros, eles não emitem opiniões.

Fernando Reinach é biólogo

MAIS INFORMAÇÕES: THE THOUSAND-YEAR GRAVEYARD. SCIENCE VOL. 342 PÁG. 1306 2013

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