Os últimos momentos do barco Mar Sem Fim

Jornalista resgatado na 5ª com sua equipe narra como sobreviveu ao furacão no meio do gelo

BRUNO PAES MANSO, EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2012 | 03h04

"Acordo pouco depois das 8 da manhã. Nem bem saí do beliche quando Plínio (um dos tripulantes) voltou lá de fora, arrasado, e me abraçou. 'O Marzão naufragou', disse, 'só a proa está de fora'. Foi um choque terrível. Um golpe. Um direto no queixo."

Foi assim que o jornalista e ex-diretor da Rádio Eldorado, João Lara Mesquita, de 56 anos, descreveu o instante em que soube do naufrágio do barco Mar Sem Fim, ocorrido na madrugada de sábado na Antártida, próximo à Baía de Fields. Mesquita, capitão do barco, e a tripulação, formada por Plínio Romeiro Júnior, de 58 anos, Alonso Irineu Góes, de 65, e Manoel de Souza, de 35, haviam sido resgatados na quinta-feira por marinheiros da base chilena local.

Os quatro tiveram de deixar o barco depois que a meteorologia anunciou a chegada de um furacão, prevendo ondas de até 10 metros de altura, que colocariam em risco a sobrevivência do grupo. Antes disso, durante três dias, com o tempo já adverso, navegaram pelo continente gelado, tentando levar a embarcação a um local seguro.

Três anos depois de visitar a Antártida captando imagens e histórias para uma série televisiva que passou na TV Bandeirantes, Mesquita e o Mar Sem Fim retornaram ao continente para registrar as mudanças ocorridas no local desde 2009. Apesar do naufrágio, o projeto do documentário vai continuar. "Amanhã (hoje) já acordo para colocar de pé o projeto de filmar a costa brasileira", disse o jornalista ontem, momentos após voltar de avião ao Brasil.

A viagem do Mar sem Fim à Antártida começou em 10 de março, saindo de Ushuaia, na Argentina, logo depois que a meteorologia anunciou uma "janela de tempo" para atravessar o Drake, estreito do mar onde os Oceanos Atlântico e Pacífico se encontram. A travessia do Drake tem de ser no momento certo, já que o tempo ruim pode provocar ondas de 20 metros.

Apesar de enfrentarem mar agitado, com ondas de 3 metros, eles conseguiram completar a travessia sem contratempos. Uma semana depois, no entanto, surgiu um primeiro percalço: um barulho vindo do fundo do barco. Para verificar o problema, um telefone à prova d'água foi amarrado no remo para filmar o que havia ocorrido.

"Era a bucha do pé de galinha do eixo direito que havia 'desembuchado'", contou Mesquita em seu blog (marsemfim.com.br). Se você não é do mar, apenas saiba que barcos também têm a "rebimboca da parafuseta", que, em nosso caso, se materializou na forma desta bucha."

Plínio, que ainda estava no Brasil, foi mobilizado para levar a peça ao grupo. O estrago acabou retardando a viagem.

Furacão. Os problemas que culminariam no naufrágio do Mar Sem Fim, no entanto, só começariam a afligir a tripulação na segunda-feira, 2 de abril. O barco já estava na Antártida, na Ilha Rei George, mais precisamente na Baía de Potter. À meia-noite, tudo estava calmo. Mas a previsão de ventos de 60 nós (110 km/h) assustava. Nos dois dias seguintes, Mesquita não conseguiu escrever seu diário de bordo. Navegou em clima hostil, sob ventos de até 50 nós (95 km/h) e ondas de 3 a 4 metros. O objetivo era deixar a Baía de Potter, cercada de geleiras e com pedras enormes que podem desprender-se e virar ameaças mortais quando o vento chega com força. Pararam na Baía de Frei. Foi quando a chegada do furacão se confirmou. Só restava pedir ajuda aos chilenos.

O barco foi ancorado em uma pequena ilha na Baía, com dois ferros de 95 quilos cada e 120 metros de corrente. Os chilenos vieram com um grande bote de borracha, com dois motores de 50 cavalos. Ondas de mais de 1,5 metro e vento de mais de 40 nós (75 km/h) faziam o bote chacoalhar "como um cavalo xucro num rodeio", escreveu o jornalista.

"No conforto do interior da base, o comandante Eduardo (Rubilar Macilla) contou que há dois dias eles esperavam nosso naufrágio nas pedras a qualquer momento. Dormiram com as roupas secas ao lado da cama, esperando não perder tempo quando o desastre se consumasse. Ficaram espantados com a nossa perícia e nos parabenizaram pelas manobras", escreveu Mesquita.

Seria o momento do Mar Sem Fim começar a luta contra as pedras gigantes de gelo e os ventos de 150 km/h. A resistência levaria três dias.

Fernando Pessoa. A inspiração para o nome do barco veio do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935). "O mar português é o mar sem fim", escreveu.

Entre 2005 e 2007, Mesquita percorreu, a bordo do veleiro Morgan, de 46 pés, batizado de Mar Sem Fim, quase 10 mil quilômetros, do Oiapoque ao Chuí, passando pelos rios da Amazônia. Essas aventuras deram origem ao programa Mar Sem Fim, exibido pela TV Cultura, e aos dois volumes do livro O Brasil Visto Pelo Mar Sem Fim.

Em outubro de 2009, Mesquita e equipe partiram para uma expedição à Antártida, com o objetivo de pesquisar o impacto do aquecimento global sobre os oceanos. A jornada acabou se transformando em uma nova série televisiva, exibida pela TV Bandeirantes. No ano passado, cenas da viagem foram compiladas nos três DVDs Mar Sem Fim - Viagem à Antártida.

Mesquita dirigiu a Rádio Eldorado entre 1982 e 2003. À frente da emissora, liderou campanhas em prol da preservação da Mata Atlântica, pela despoluição do Rio Tietê e pela conscientização das pessoas quanto ao descarte correto do lixo.

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