Os porcalhões do templo

O Espírito Santo haverá de ser compreensivo quando diante d"Ele se apresentar o padre Francisco Moussa. Pois bem sabe o que o pároco da Catedral Metropolitana de Ribeirão Preto já penou na cruzada que trava em dupla frente: a espiritual, para capturar fiéis, e a ornitológica, para expulsar pombos que fizeram da praça da catedral seu pouso e sanitário.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2011 | 00h00

Não se fala muito das atividades do padre Francisco no terreno, por exemplo, das novenas, mas a imprensa, estrangeira inclusive, em mais de uma ocasião deu destaque à sua luta contra o Mal, incidentalmente encarnado numas aves - cerca de 20 mil - que estariam para seu sósia, o Espírito Santo, como Lúcifer para os anjos do Senhor.

Você talvez tenha notícia dessa refrega já antiga, coisa de uns quatro anos, que o padre Chico, como também é conhecido em Ribeirão, desencadeou contra os inimigos empoleirados nas imediações da casa de Deus. Disposto a escorraçar os ratos alados, que além de sujeira espalham doenças, o sacerdote, de temperamento bem pouco contemplativo, começou sugerindo que se usasse um repelente contra os porcalhões do templo.

Foi o bastante para se tornar ele próprio repulsivo aos olhos de protetores de animais. Não adiantou o padre Francisco, devoto declarado de seu xará de Assis, explicar que não pensara em veneno, mas numa substância com sabor uva, inofensiva à saúde das aves, porém capaz de provocar nelas uma insopitável vontade de bater asas.

Tachado de columbicida, o jovem padre, que mal entrou nos 30 anos, ofereceu cristãmente a outra face, sob a forma de nova bolação para afugentar os invasores: povoar a praça com gaviões, falcões e macacos. Pra quê! A maré de protestos subiu mais, engrossada agora por defensores específicos dessas criaturas, sob a alegação de que seriam arrancadas de seu sossego campestre e condenadas às agruras do exílio urbano. Gritaria semelhante, só em janeiro passado, quando, em busca de recursos para a construção de um centro social, ocorreu ao Padre Chico rifar "um charmoso Fusca branco, 1980, a álcool, carregado de cervejas", conforme se pôde ler num banner à entrada da catedral. "Igreja romana rifa Fusca carregado de manguaça", fustigou uma publicação evangélica. Não se sabe se foi por isso que a ganhadora dispensou a cerveja.

Na guerra ao desmoralizado símbolo da paz, o padre Chico desistiu dos gaviões, falcões e macacos, mas nem por isso depôs as armas: passou a erguer para os céus, todo fim de tarde, não apenas preces como os estampidos de seis a dez rojões. Não é que deu certo? "Eu fui roceiro e sabia como espantar bichos", comemorou o padre - que, para consolidar a operação espantalho, sacou uma ideia literalmente luminosa: mandou instalar na praça, voltados para as árvores, 14 holofotes com lâmpadas de 400 watts.

Tamanha criatividade por certo causaria inveja ao cidadão francês Pierre Roger, de quem provavelmente nunca ouviu falar. Não sei se ainda está entre nós. Quando o conheci, nos anos 70, era responsável pela limpeza pública de Paris, e, sob chacotas da população, vinha perdendo sucessivos rounds em seu combate aos pombos. Primeiro, armou operação para capturá-los e despachá-los rumo a outra freguesia. Voltaram. Em seguida, mandou lambrecar telhados mais ilustres com um preparado derrapante. Fiasco: tendo escorregado de um prédio, as aves iam se instalar no vizinho.

Em desespero, Pierre Roger chegou ao recurso que lhe pareceu infalível: o milho contraceptivo. Bastaria acrescentar aos grãos um tanto de ornitrol, substância capaz de tornar os pombos estéreis por seis meses. Faltou convencer os comensais a ingerir 30 gramas desse milho turbinado, e nada mais, durante dez dias. Quando perdi Pierre de vista, já meio depenado aos olhos da opinião pública, ele se empenhava em multar as velhinhas que nas praças davam de comer aos pombos. Os quais continuam lá, impávidos, conforme pude constatar em recente viagem a Paris. Será que o nosso padre Chico encararia um frila às margens do Sena?

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