Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

Os pontos de encontro do poder

Onde ficam os bancos de investimento, flats, restaurantes, casas e escritórios dos [br]megacontratos assinados na cidade

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2011 | 00h00

O escritório de advocacia Barbosa, Mussnich & Aragão (BM&A), que na semana passada assessorou a operação de R$ 300 milhões entre a Webjet e a Gol, é tão bem preparado para negócios de grande porte que tem até chuveiro - para o caso de a conversa levar muito tempo e obrigar as partes a tomar banho ali mesmo. Com sede no Rio, o escritório tem um poderoso braço paulistano na Avenida Juscelino Kubitschek, no Itaim-Bibi, zona sul, onde se deu a negociação.  

     

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O Expedição Metrópole circulou por cerca de 20 endereços imprescindíveis para quem quer saber onde o poder dá as caras em São Paulo. São escritórios de advocacia, bancos de investimento, butiques financeiras, flats, restaurantes e até residências em cujos luxuosos salões se fecham grandes negócios, assinam-se megacontratos artísticos e se articulam as mais ardilosas alianças políticas.

A história do chuveiro ajuda a dimensionar a privacidade que esses encontros demandam. Ficou famosa, por exemplo, a transação no ano passado de dois dos maiores grupos de varejo do País, a Insinuante e a Ricardo Eletro, cujos interlocutores viraram a noite em um quarto de hotel no Itaim. "Em um momento, o Ricardo (Nunes) perguntou: "Cadê a toalha?" Dali a pouco ele já estava de pijama. Acho que isso ajudou a fechar o negócio, porque acabou com a formalidade", disse, na ocasião, o empresário Luiz Carlos Batista.

O arquiteto Sérgio Athié, que assina o projeto do BM&A, explica a necessidade de se acrescentar às salas um pequeno vestiário e lounges para relaxar - até dormir. "Alguns executivos vêm de outros Estados, ou de fora do Brasil. É preciso oferecer estrutura e conforto", diz Athié, autor dos projetos da maioria dos grandes escritórios, como Machado Meyer.

Fica no Itaim e nos arredores (Jardins, Brooklin, Marginal do Pinheiros, todos na zona sul) a região mais valorizada da cidade, corporativamente falando. Em um só pedaço, que mais parece uma praça de alimentação financeira, está uma dezena de bancos de investimento do porte do BTG Pactual, Credit Suisse, HSBC, Itaú BBA, Merill Lynch e Goldman Sachs. O m² de um imóvel comercial naquele trecho, segundo a Embraesp, custa de R$ 15 mil a R$ 20 mil.

O escritório da Estáter, uma das principais intermediárias da polêmica fusão de Carrefour e Pão de Açúcar (o "chuveiro" está há dias ligado), é na (olha aí) Juscelino Kubitschek. A fachada do prédio não é imponente: dir-se-ia que se trata de arquitetura corporativa standard. O interior, idem.

No outro extremo, o dos prédios grandiosos, estão escritórios como o do Pinheiro Neto, na Marginal do Pinheiros. Ocupa a construção "neoclássica" que antes abrigava o Banco Santos. Pela semelhança com o da Daslu, é chamado por desafetos de "Daslei".

Em política e no meio artístico, onde personagens são públicos, a alegada necessidade de privacidade faz com que articuladores como o prefeito Gilberto Kassab e o empresário Sílvio Santos, do SBT, recebam na sala de casa.

Kassab alinhavou as bases de seu Partido Social Democrático no apartamento de 225 m² onde mora. Fica no 9.º andar de um edifício no Jardim Paulistano. Pela porta literalmente dourada do apartamento entram vereadores de todos os partidos e tendências, além de figurões, como o vice-presidente da República, Michel Temer. Sua preferência é tão notória que no sábado até protesto teve ali, contra aumento de seu salário.

O empresário Silvio Santos, do SBT, também se sente mais confortável para conversar sobre negócios em casa. Já sentaram nos sofás da sala de SS, que fica no Morumbi, Hebe Camargo, Gugu, Eliana e Roberto Justus.

Também na zona sul está boa parte dos campos de golfe da cidade. Uma partida tem 18 buracos e leva cerca de quatro horas. Tempo suficiente para aproximações rentáveis. Mas seus praticantes costumam dizer que é no 19.º buraco (o bar do clube) que se conclui o jogo dos negócios.

Restaurantes. Nos mais concorridos, a praxe é chegar de carrão, cumprimentar o maître como se fosse amigo de infância, acenar para as outras mesas e mostrar intimidade com o cardápio, o maître e o sommelier. Parigi, Rodeio, Figueira Rubaiyat, Magari, do Jockey - os mais votados são cerca de uma dúzia. "Nos restaurantes se dão os primeiros contatos, as apresentações, a percepção de tendências", diz o consultor Roberto Teixeira da Costa. "Mas não é para estudar contrato ali. Ninguém come com aquela papelada em cima da mesa."

O advogado Sérgio D"Antino, que em 51 anos de carreira intermediou mais de mil contratos de artistas com empresários de TVs e revistas, pensa a mesma coisa. "É difícil conversar com gente conhecida em público. As pessoas interpelam, fica todo mundo ouvindo a conversa. O assunto pode virar boato rapidamente" diz ele, que costuma fazer negócios em seu escritório, em Perdizes, zona oeste, ou na casa dos artistas. Ele lembra que Adriane Galisteu negociou com a Playboy para posar nua em uma happy hour em seu apartamento, em Higienópolis, região central.

Pouco famoso no Brasil, mas bem poderoso no circuito dos enólogos, o dono da vinícola espanhola Pesquera, Alejandro Fernandez, cumprimentava ontem o sommelier do Figueira Rubaiyat, Fernando Souza, que o tem como ídolo. Fernandez está no Brasil para negociar seus vinhos, que foram servidos para apreciadores em um jantar de R$ 460 por pessoa.

No Parigi, o gerente Hélio Andrade, de 61 anos, aponta a segunda mesa à esquerda da entrada e diz que é a mais bem localizada - dela é possível ver e ser visto de bom ângulo. No dia em que o Estado esteve lá, ocupavam a mesa o banqueiro José Olympio, do Credit Suisse, e o incorporador João Rossi. Na do lado estava o banqueiro Ricardo Lacerda. Se o cliente é, digamos, mais extrovertido, como Paulo Maluf ou João Dória Jr., seu Hélio já sabe que vai precisar das mesas centrais, redondas.

No Magari, que fica do outro lado da Rua Amauri e é um dos preferidos de Kassab, o maître Jorge Maia é cumprimentado pelo empresário Edevaldo Alves da Silva, que está de saída. "Taí a melhor caixinha de São Paulo", comenta Maia, que não tem hábito de anotar pedidos - prefere guardá-los de cabeça. Ele não escreve uma palavra ao atender a mesa de mais de dez pessoas do arquiteto Júlio Neves.

Parigi e Magari ficam a cinco minutos a pé da "praça de alimentação financeira". Ambos costumam fazer delivery para sócios do grupo Votorantim e da Natura, que ficam por ali. O tíquete médio nesses restaurantes é algo em torno dos R$ 200, mas este não é só o preço da deliciosa costeleta de vitela à milanesa ou um suculento nhoque com queijo fontina acompanhado de um Brunello di Montalcino. Inclui também valiosa exposição, a notícia.

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