Luiz felipe Barbiéri
Luiz felipe Barbiéri

O fotógrafo da torcida do Juventus

Nas arquibancadas da Rua Javari, Sérgio Barros registra as reações mais espontâneas

Luiz Felipe Barbiéri, O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2015 | 17h45

Sérgio Ribeiro de Barros é o fotógrafo não-oficial da torcida do Juventus. Apaixonado por fotografia, acabou deixando-a de lado quando ouviu dizer que a profissão de freelancer “não era para gente grande”. Naquele começo dos anos 1990, a boina, o discreto brinco da orelha esquerda e o colete, que hoje ele costuma usar, foram trocados por sapatos, gravata, camisa e o emprego em uma multinacional. Na empresa de tecnologia, Barros passou por marketing, financeiro e comercial. Até que se desentendeu com o presidente. “Entre ter razão e ser feliz, vou voltar a fotografar”, decidiu. Em 2009, comprou a câmera digital com a qual congela gritos de gol e eterniza as expressões das arquibancadas. Não recebe nada por isso. “São duas paixões”, explica. “Não fotografo tanto a equipe em campo, mas os torcedores. São eles a alma do time e da Rua Javari.”

A ideia partiu de sua mulher, Irina Yamamoto de Barros. Desde que se mudaram para a Mooca, há dez anos, os dois acompanham o Juventus. Barros, porém, sempre sofreu muito como torcedor. Para acalmar o ímpeto do marido, Irina sugeriu levar a máquina para o estádio. Deu certo. Desde 2010 a torcida grená é fotografada por ele durante os jogos. De longe, a lente de 200 milímetros e o zoom ajudam a captar, no anonimato, as reações mais espontâneas.

Em 2012 veio a página “Eu na Javari”, que um amigo o convenceu a criar para descarregar o material no Facebook. Hoje, mais de duas mil pessoas seguem suas fotos nas redes sociais. “Eu procuro ser os olhos dessa torcida diferente, que é bem família, com crianças e torcedores mais tradicionais”, diz Barros, que garante estar levando a vida que sempre quis. Atualmente, presta consultoria em gestão de pessoas e seu trabalho como fotógrafo freelancer já rendeu exposições internacionais. Trinta de suas fotos foram vendidas a uma galeria na França, que irá divulgar seu trabalho durante uma exposição sobre moradores de rua. Nas horas livres, o escritório é a Rua Javari.

Mooca e Juventus. Barros não é ‘mooquence’. Nasceu no Rio Pequeno, na zona oeste. Tampouco cresceu juventino. A família são-paulina influenciou sua torcida só até 1977, quando tinha dez anos. “Num jogo entre Corinthians e Juventus, no Morumbi, me apaixonei pelo time. Quando vi aquele uniforme grená e fiquei sabendo que aquele era o ‘moleque travesso’, comecei a gostar.”

Ainda criança, ele esteve na Mooca pela primeira vez para acompanhar o pai em uma concessionária, na Avenida Paes de Barros. As árvores e os edifícios antigos deram a impressão ao garoto de que ele estava na mesma avenida em que vivia seu avô, em Santos. “Pedi ao meu pai, então, que mudássemos para a Mooca.” Na realidade, esse desejo só se concretizou em 2005. O segundo casamento o levou para o bairro e o Rio Pequeno ficou para trás. Assim como o São Paulo Futebol Clube. “Hoje, o Juventus é o meu primeiro clube.”

Leve a foto com você. Em maio de 2015, no jogo que decidiu o acesso do “moleque travesso” à série B do Campeonato Paulista, Barros e o fotógrafo oficial do clube, Ale Vianna, deram um presente à torcida. Com apoio da Esfiha Juventus e da Web Rádio Mooca, eles revelaram e espalharam 250 fotos dos torcedores em árvores das ruas Visconde Laguna e Javari. Dentro do estádio, foram penduradas nos alambrados e nas arquibancadas.

Barros conta que sabia mais ou menos o local em que cada torcedor retratado assistia aos jogos. Com a ajuda de Vianna, distribuíram as imagens nesses lugares. Um fã grená se emocionou. Achou a foto do pai, que morrera entre um jogo e outro, e procurou Sérgio para agradecer. “Foi só uma forma de retribuir aos juventinos o meu amor pelo clube e pela fotografia.”


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