Os olhos da Imigrantes sob neblina

Douglas Messias Alves, de 37 anos, lidera há dez as (demoradas) operações de comboio na direção do litoral sul de São Paulo

MÁRCIO PINHO, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h04

O Sistema Anchieta-Imigrantes tem neblina durante 200 dias do ano em média e, quando a visibilidade cai a ponto de tornar a viagem arriscada, é Douglas Messias Alves, de 37 anos, quem se torna os olhos da estrada. Os dez anos liderando operações de comboio na direção do litoral sul de São Paulo o habilitaram a saber melhor do que ninguém onde estão todas as curvas quando o carro está dentro de uma nuvem.

A cadeira de rodas com que se locomove e as muletas nas quais se apoia ao caminhar na direção da viatura que lidera o comboio podem até enganar um ou outro motorista. Só até Douglas iniciar seu percurso e mostrar que segurança é o que não falta quando a viagem está sob seu comando.

O funcionário da Ecovias tem uma prótese na perna direita em razão de poliomielite, adquirida aos 2 anos. E foi justamente a mobilidade reduzida que o levou, por meio de um programa de inclusão, a ingressar na Dersa em 1992, quando a empresa estadual administrava o sistema. Exerceu várias funções, antes de liderar comboios. "Fazer esse tipo de trabalho, para mim, é sinônimo de preservar vidas", diz.

No último dia 15, ele acompanhou com espanto, da sala de controle da Ecovias, o engavetamento que envolveu cerca de 300 veículos, segundo a Polícia Rodoviária. Como a Ecovias não realiza comboios na pista sentido capital, onde aconteceu o acidente, Douglas fez o que deu. "Nunca tinha visto nada nessa proporção. Comecei a acionar recursos. Guinchos, ambulâncias, bombeiros. O sentimento foi de querer ajudar."

A reportagem acompanhou Douglas em uma operação na quarta-feira, no Gol prata da Ecovias. O veículo puxa a comitiva ao lado de outro veículo da Ecovias e dois da Polícia Militar Rodoviária. A missão é mais complexa do que dirigir devagar na estrada.

Buzinas. O primeiro desafio é manter a calma. Os carros são represados no pedágio (km 32), formando grupos de 1.500 veículos. Motoristas se revoltam em ter de esperar e começam a buzinar. Motoqueiros, expostos à chuva e ao frio, são os mais inconformados. Um deles chega a dizer "Quero meu dinheiro de volta", esquecendo-se de que a categoria é isenta do pedágio de R$ 20,10 - exclusivo para carros. O nervosismo contrasta com o bom humor do condutor. "Eles param", garantia, sem se abalar.

O pelotão parte após 30 minutos de espera. O velocímetro não supera os 40 km/h, e quem tenta ultrapassar é fechado, sem nenhuma cerimônia. "Não podemos deixar passar. Uma ambulância sem sirene ligada certa vez escapou e bateu no comboio que ia à frente. Duas pessoas morreram", conta. Para evitar isso, o rádio é usado para avisar os postos da Polícia Rodoviária sobre fujões.

No km 40, perto da descida da serra, os carros da polícia continuam pela Imigrantes, enquanto os da Ecovias pegam a interligação para a Anchieta, que é a única rodovia permitida aos caminhões na descida. Nesse ponto, é mais fácil entender por que o comboio era necessário. A visibilidade ali é de cerca de 80 metros - quase nada para veículos em velocidade. O ponteiro do velocímetro cai para 20 km/h. A viagem termina no km 40 da Anchieta, onde a neblina se dissipa.

O trajeto que durou 45 minutos é percorrido em 15 em dias normais. A viagem que parecia não acabar para todos que se dirigiam ao litoral foi mais uma para Douglas. "Já me acostumei." Quando a viatura sai do pelotão, há quem agradeça pela viagem segura, mas é exceção.

Telão. Quando não está dirigindo, Douglas está no centro de controle, onde um telão traz imagens de 44 câmeras e informações de dez estações meteorológicas. Quando a visibilidade cai para menos de 100 metros, o comboio é necessário. Se a situação é crítica, Douglas não tem hora para voltar para sua casa, em São Bernardo do Campo, onde vive com a mulher e a filha de 13 anos.

Os dias de sol não são chance para o ócio. É preciso responder às queixas feitas pelo 0800, coordenar equipes de guincho e formar condutores - cem são habilitados para atuar em comboios. Em 19 anos no Sistema, já ouviu um gracejo relacionado à sua mobilidade reduzida. "Saí do carro, e o motorista ficou surpreso, dizendo que quem precisava de ajuda era eu, e não ele. Dei risada."

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