Os homens do tempo

Meteorologia não é mais misticismo. E duas empresas provam isso, conquistando um mercado que vai de noivas a construtoras

Flávia Tavares, O Estadao de S.Paulo

14 Março 2010 | 00h00

Paulo não gosta de elevador. Inevitavelmente, o assunto será o tempo e alguém vai soltar um "o clima está doido". Paulo fica louco com isso. "As variações de chuvas fortes, calor ou frio inesperados sempre ocorreram. O que mudou é o tanto que elas nos afetam", explica, retomando o bom humor. Ele fala com segurança porque é uma espécie de psiquiatra do clima, analisa suas intempéries: Paulo Etchichury é meteorologista, sócio-fundador da Somar, empresa que presta serviços de previsão do tempo.

André Madeira, meteorologista e sócio da Climatempo, a outra grande dessa área, até gosta dessa mania que se tem de assuntar sobre como está o dia. "Quanto mais informação as pessoas têm, mais elas se interessam em discutir as condições climáticas." Falar do tempo é quase tão antigo quanto depender dele. Só que, de duas décadas para cá, fala-se com muito mais precisão. Os meteorologistas não são mais aquela figura mística, prima dos astrólogos. São cientistas com muita tecnologia a seu dispor.

"Quando comecei, em 1990, conseguíamos, no máximo, fazer a previsão para daqui a três dias", lembra Madeira. "Hoje, fazemos uma boa previsão para sete dias e uma confiável para 15." Assim, o mercado de meteorologia esquentou - inevitável o trocadilho. Não está mais restrito à moça do tempo da TV, aos boletins nas rádios ou aos sites. Setores que dependem do futuro para se organizar pedem análises específicas, que podem variar em periodicidade. Uma noiva pode solicitar uma previsão para daqui a um mês, na data de seu casamento. Uma confecção talvez precise da previsão sobre o inverno do ano que vem.

Clima e comércio. O Lojão do Brás não passa aperto. Desde 2005, os donos correm atrás das compras da estação com um relatório meteorológico no bolso. Em datas especiais, também preparam estoques e vitrines de acordo com o clima. "No Dia das Mães, se estiver mais friozinho, as vendas aumentam. Porque é uma compra emocional, sabe?", diz Andréia Bezerra Bessa, diretora de Marketing. "A mesma coisa no Dia dos Namorados."

O namoro de Raquel de Campos foi quente e ela teve apenas quatro meses para organizar seu casamento com Felipe. Escolheu uma chácara em Campinas, queria poder escolher um céu limpo. Não podia, escolheu contratar as duas consultorias para decidir o tamanho da tenda que estenderia sobre os convidados. Pagou cerca de R$ 190 para cada uma. "As duas disseram que não choveria no dia 17 de outubro de 2009", conta. Não choveu. Mas "toda noiva é neurótica", generaliza, e Raquel não só optou por uma tenda enorme como ligou para os meteorologistas enquanto se submetia ao "dia da noiva".

Numa outra escala de neurose, o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) de São Paulo também é cliente das consultorias meteorológicas. As dramáticas consequências dos temporais são monitoradas por meteorologistas próprios, 24 horas por dia, e por profissionais da Somar. "A previsão é o grande trunfo do nosso trabalho e é repassada a todos os órgãos da Prefeitura, duas vezes ao dia", explica Flavio Rodrigues, gerente do CGE.

Quem também lida com o caos da cidade e carece de planejamento são as seguradoras de automóveis. A Porto Seguro, para citar uma, contrata os serviços de previsão para uma semana. "Assim, consigo preparar guinchos e reforçar o call center para atender os chamados em dias de chuva forte", explica Milton Oliveira, gerente da área de socorro da seguradora. Ele admite que, às vezes, a meteorologia falha. "Mas tentamos ficar sem esse serviço por um ano e nos arrependemos", afirma.

Bola fora. Erros acontecem. Vários fatores, como estação do ano e região do País, interferem na precisão das análises. No verão, é mais difícil acertar a previsão em São Paulo, porque não só as frentes frias alteram o clima, mas o próprio calor da cidade.

No dia 7 de março, um sábado, deu chabu. A meteorologista Josélia Pegorim, sócia da Climatempo e voz do tempo na Rádio Eldorado e em outras emissoras, diverte-se meio constrangida com o boletim que fez na noite de sexta-feira passada dizendo que todos deveriam aproveitar para passear pelas novas ciclovias na manhã seguinte. "Quando vi o mundo desabando, fui analisar os eventos da madrugada e observei aquela tempestade chegando rapidamente à capital. Não tinha como prever", justifica. Porém, ela acredita que a fidelidade dos clientes é prova de que há mais acertos que erros.

Um desses usuários fiéis é o produtor Tadeu Piantino. Se ele vai fazer uma filmagem externa para algum comercial, aciona a Climatempo. Há 20 anos. "Eu ligava direto para o Narciso Vernizzi", orgulha-se ao se referir à lenda rádio-climática. Financeiramente, o investimento é mais do que compensador para Tadeu. Uma "saída" sua com equipamento para filmagem pode custar ao cliente cerca de R$ 80 mil. "É uma vantagem da consultoria. Eles me dão um laudo por escrito da previsão. Se chover, tenho como provar ao cliente que não foi erro meu", diz o produtor, que paga R$ 180 para uma previsão para daqui a 15 dias.

Em Maracaí (SP), há seis anos o agricultor Bruno Schlegel decide as datas de colheita e plantio da soja, do milho e do milho safrinha com base nos relatórios do tempo. E olha que sua propriedade de 700 hectares está em uma região onde, num raio de 50 quilômetros, há três climas distintos. E ele já tem a previsão até fevereiro de 2011. "O serviço é tão personalizado que, além do boletim trimestral, posso ligar para os meteorologistas. Eu ligo. Quase todo dia." Ele garante que o índice de acerto chega a 95%. "Os homens do tempo são meus companheiros de trabalho."

Larga escala. A demanda pelas previsões específicas passa ainda por setores mais amplos, como os da energia e da construção civil. A Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP) depende desse monitoramento para proteger suas linhas de transmissão, torres e subestações. E a vida de seus funcionários. "Raios são o maior perigo", explica Marcos Meloni, gerente do Centro de Operação da CTEEP. "Além de mobilizar equipes de manutenção e resgate, preciso de laudos para prestar contas ao governo, já que somos uma concessionária."

A segurança também é prioridade nas operações da Odebrecht, seja no Rodoanel ou na construção dos emissários submarinos da Baixada Santista. "Trabalhar no mar é muito arriscado. Sem previsão meteorológica, não há condições", avalia Josnei Cirelli, diretor de contratos.

De longe, um dos serviços mais inusitados que a previsão do tempo tem hoje é em disputas judiciais de família. Aquele mesmo laudo meteorológico que salva o produtor cinematográfico do prejuízo pode definir de quem será a guarda de uma criança. "Já fomos acionados para provar que um pai separado demorou para devolver o filho à mãe porque choveu muito e ficou preso em casa", conta Etchichury. Outro caso desses: a mãe, que enfrentava um divórcio litigioso, foi flagrada pelo pai dando banho de mangueira na criança. Precisou provar, "meteorologicamente", que o dia estava lindo, merecia uma brincadeira dessas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.