Filipe Araúko/AE
Filipe Araúko/AE

Os guardiões de um patrimônio em ruínas

Prédios tombados de São Paulo, de notável importância histórica, só não estão no chão porque alguém toma conta enquanto os donos não decidem o futuro desses edifícios

VITOR HUGO BRANDALISE, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2011 | 03h05

A Fábrica de Cimentos Portland, de onde saiu o concreto que construiu Brasília, no fim dos anos 1950, está em ruínas, escondida no extremo norte da capital paulista. O antigo Santapaula Iate Clube, luxuoso projeto do arquiteto João Batista Vilanova Artigas à beira da Represa do Guarapiranga, também luta para ficar de pé. Na Mooca, zona leste, um dos prédios mais representativos do antigo polo têxtil do bairro, com maquinário desativado há décadas, está abandonado. São edifícios tombados, de notável importância histórica, que foram deixados de lado com o tempo e só não estão no chão hoje porque há alguém que tome conta.

Enquanto os proprietários não decidem o futuro dos prédios, zeladores fazem as vezes de cuidadores desse patrimônio. A Expedição Metrópole visitou algumas das ruínas urbanas da capital.

São prédios históricos abandonados, que retratam diferentes fases da história da cidade, hoje transformados em residências de poucos - e, de certa forma, privilegiados - moradores.

Vila Triângulo. Em Perus, na zona norte, a vila operária da Fábrica de Cimentos Portland vive seus últimos dias. O vilarejo - que já serviu de abrigo a 70 famílias de operários da primeira fábrica de cimento do País, inaugurada em 1926 - foi invadido, inicialmente, por usuários de drogas e agora passa por um processo de desocupação comandado pelos atuais proprietários, o Grupo J.J.Abdalla. A antiga capela de São José, que dá aparência ainda mais idílica ao arborizado local de ruas de terra, não celebra missas desde a década de 1990.

Apenas três famílias vivem atualmente nas casas - todos familiares de antigos funcionários. "A vila era o parque de diversões de Perus. Tinha festa no Clube Caramanchão, aqui dentro mesmo, e pesca nesse córrego aí", aponta o eletricista José Pedroso, de 63 anos, morador de umas das três casas que ainda mantêm portas e janelas originais da antiga vila operária.

Pedroso trabalhava na manutenção da fábrica, um complexo de moinhos de cimento, depósitos de minerais e unidades de ensacamento - ainda está tudo ali, mas em péssimas condições. "Havia filas de caminhões do Brasil inteiro, que passavam dois dias para buscar cimento aqui", conta o eletricista.

Alda Giovanini, de 73 anos, nasceu na vila operária - batizada Vila Triângulo, por causa da forma em que se dispõem as casas. "Chegava a noite e todo mundo vinha para a varanda, para conversar sobre amenidades e também sobre política", diz Alda, filha e irmã de funcionários. A família dela participou ativamente da greve de dez anos na fábrica, mais longa paralisação da história do País. "Uma pena que esteja assim, abandonado. O que aconteceu aqui foi importante para o Brasil em diversos momentos. Parece que ninguém mais lembra."

A Fábrica de Cimentos Portland - de onde também saiu o cimento que concretou o Vale do Anhangabaú - é tombada por órgãos de patrimônio do Estado e do Município desde 1992. Os donos querem construir um condomínio, mas ainda não há projeto - em casos assim, a Prefeitura costuma exigir preservação ao menos parcial das ruínas.

"Algo tem de ficar de pé, como testemunho. Vem gente querendo filmar, estudantes de arquitetura querendo aprender. Não pode simplesmente derrubar", disse Raimundo de Souza, de 67 anos, que toma conta do que restou da antiga fábrica.

Luxo e casarões. A estrutura do Santapaula Iate Clube, na beira da Represa do Guarapiranga, na zona sul, é de dar inveja a clubes de luxo. O conjunto de dois prédios unidos por túnel por baixo da Avenida Atlântica (antiga Robert Kennedy) tem piscina de 1,2 mil metros quadrados, três salões de festas, duas saunas completas (com antigas mangueiras de alta pressão para jatos d'água quente), salões de TV, churrasqueira e seis pistas de boliche. Também abriga a célebre garagem de barcos de Artigas, com vão livre e construída em concreto aparente. Há mais de 20 anos, o complexo serve como depósito e tem sinais de abandono.

Quem toma conta é Sebastião Profeta dos Santos, de 43 anos, que sempre trabalhou ali. "Entrei aos 17 anos, levantando pinos do boliche, e nunca tive outro emprego. Os maiores bailes de carnaval eram aqui, vinha gente da cidade toda", diz Sebastião, que vive com a mulher e três filhos em uma casa improvisada no antigo escritório da presidência do iate clube. "Quando faço vistoria, fico lembrando do pessoal na piscina, das festas chiques, dos barcos na represa. Dá saudade."

No ano passado, foi apresentado projeto que preserva o complexo e o transforma em hotel, mas o proprietário ainda busca recursos para a obra.

Na Rua Gabriel dos Santos, em Santa Cecília, região central da capital, há oito casarões tombados, a maioria construída na primeira metade do século 20 pelos endinheirados barões do café. Duas das mansões de época, vizinhas na altura do número 800 da via, estão abandonadas há pelo menos dez anos. "Dá trabalho porque a casa é cheia de detalhes", afirma o zelador de um dos prédios, Osmar de Brito, de 39 anos. "Uma das tarefas é limpar os vitrais e os ornamentos de ferro. A outra é tapar as goteiras. Dá medo de que um dia isso tudo caia." Os proprietários dizem não ter condições de restaurar o casarão cuidado por Brito, erguido nos anos 1920.

Outra região da cidade pródiga em construções abandonadas é a Mooca, bairro símbolo da primeira industrialização de São Paulo. Construída na década de 1910, a Fábrica de Tecidos Labor é exemplo da degradação que toma conta dos antigos galpões industriais de arquitetura inglesa.

"O casarão principal, com seus vitrais e o chão todo trabalhado em madeira, mostra a importância que os antigos proprietários das fábricas davam às sedes administrativas da empresa. Isso tem de ser restaurado", diz Douglas Nascimento, que se dedica a fotografar construções abandonadas em São Paulo. "A cidade está cheia dessas 'ruínas'. Mostra a falta de importância que a sociedade, seja proprietário ou poder público, dedica ao patrimônio histórico."

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