Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Os fãs culturais de carteirinha de SP

Eles compram todas as temporadas de dança, cinema e música, ficam horas na frente de palcos e telas e até sugerem a programação

Valéria França e Diana Dantas, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

Há um grupo de paulistanos que faz de tudo - tudo mesmo - para não perder os principais espetáculos da cidade. Logo no início do ano, compra os pacotes completos das temporadas de dança, de cinema e de música. E de acordo com as programações, organiza o restante da vida, como férias, reuniões familiares e compromissos profissionais. Trata-se de uma espécie de confraria, cujos integrantes têm fôlego para assistir em um só dia a três peças de teatro ou a cinco horas seguidas de filme. E para mandar sugestões sobre espetáculos aos organizadores dos eventos.

"Todo mundo é programador", diverte-se Elisabeth Machado, superintendente do Teatro Alfa. "O assinante da nossa temporada de dança é muito participativo. Ele manda sugestões por e-mail ou faz pedidos pessoalmente nos intervalos dos espetáculos, quando me encontra no saguão." Elisabeth acha até bom. "É um público que viaja muito e vê muitos palcos internacionais. Muito do que sugerem entra no cardápio da casa."

O administrador Fernando Ratão, de 42 anos, é um desses assinantes interativos do Teatro Alfa. "Já consegui emplacar alguns espetáculos", orgulha-se ele, que também assina as temporadas da Osesp, do Mozarteum, do Alfa e do Cultura Artística. Até o ano passado, também comprava o pacote da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. "Neste ano, sabia que teria de viajar nessa época", explica. "Sou muito ocupado. Assinar os pacotes é uma forma de organizar com antecedência minha agenda e assim não perder nenhum espetáculo."

Com a programação cultural nas mãos, ele consegue marcar as viagens de negócios e o curso de alemão e ainda encaixar as aulas de natação. "Não tenho tempo de correr atrás de ingressos. Quando a apresentação é disputada, as entradas se esgotam rápido", observa.

Lugar cativo. Os assinantes têm alguns privilégios. No Teatro Alfa, por exemplo, quem compra o pacote dos espetáculos de dança ganha 15% de desconto em cima do preço cheio do ingresso. E paga 10% a menos nas entradas para outras apresentações da casa. "Nesses casos, também tenho o direito à compra antecipada. Tiro meu ingresso antes de a bilheteria abrir para o público não assinante", diz a engenheira Eneida Souza Bulle Oliveira, de 51 anos, que tem lugar cativo na plateia superior, de onde desfruta uma visão geral do palco. "Se não fosse esse privilégio, não teria conseguido ver a apresentação do (Mikhail) Baryshnikov, que hoje virou uma atração pop. O meu lugar é um dos mais baratos, do tipo que acaba rápido", explica.

Eneida é assinante do Alfa desde 2004. Também há seis anos sua filha, Luisa, de 14 anos, ganha de presente de aniversário uma assinatura para acompanhar a mãe ao teatro. Ela adora. Está estudando teatro e dança balé desde criança. "Conhecemos todo mundo aqui. Isso virou um clube, onde os integrantes trocam informações e fazem novos amigos", diz Eneida.

Em vez de passar horas andando no shopping, mãe e filha divertem-se encarando uma maratona de peças. No último sábado de outubro, passaram seis horas dentro do Alfa. Assistiram a duas peças infantis e a uma ópera. Mas não pegaram fila, tinham lugar marcado e desconto no estacionamento de 50%.

Fila. Mas nem sempre ter assinatura é sinônimo de conforto. Os cinéfilos que compraram neste ano o pacote integral dos 400 filmes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, por exemplo, até conseguiram retirar o ingresso quatro dias antes da exibição do filme - vantagem dada só a assinantes. No entanto, tiveram de enfrentar as filas para entrar nas salas de exibição da mesma forma que os demais pagantes. O ingresso não tem lugar marcado - e essa é só a largada da maratona.

Compradores dos pacotes especiais, esses cinéfilos estão acostumados a encarar um filme atrás do outro, e uma fila seguida da outra. "Se o longa for bom, passa rápido. Na Mostra deste ano, assisti a Carlos (produção franco-alemã, de Olivier Assayas), que tem cinco horas e meia", comenta a tradutora Juliana Oliveira, de 33 anos, que também arrumou fôlego para o português Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz, que tem quatro horas e meia de duração.

Em média, o público passa seis horas por dia dentro da sala de cinema. Como a Mostra costuma durar duas semanas, a organização do evento estima que o público gaste pelo menos 60 horas no cinema somente nesse período. É como se ficassem dois dias e meio seguidos no escuro.

No limite. Como lembra Juliana, a odisseia cinematográfica pode ser exaustiva. "Fico cansada e sobrecarregada com tantas imagens. No dia seguinte, é difícil levantar da cama", explica ela, que não completou os 60 filmes que estavam em sua lista porque estava gripada no último dia do evento.

Juliana não é a única que tomba antes de acabar a Mostra. O estudante André Mascarenhas, de 23 anos, lembra que ficou doente em 2009, mas neste ano se cuidou para evitar novos problemas. "Dormi sete horas por noite e procurei ter uma boa alimentação", afirma.

Para enfrentar a jornada, Juliana tira férias especificamente na época da Mostra, para ter tempo de ver todos os filmes. E Mascarenhas admite que só aparece na faculdade uma vez por semana. Mas justifica-se: "Economizo as faltas ao longo do semestre."

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