Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Os donos das 1ªs notas do Municipal

Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo reapresenta teatro à metrópole

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2011 | 00h00

Quando o Teatro Municipal for reapresentado aos paulistanos hoje, a partir das 17 horas, após três anos de reforma, uma das primeiras notas a ecoar pelos seus salões será um ré maior. Um ré glorioso, sustentado por dois violinos, uma viola e um violoncelo. O Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo interpretará, com a Orquestra Sinfônica Municipal, o Concerto para Quarteto de Cordas e Orquestra, de Radamés Gnatalli.

E, assim, Marcelo Jaffé, Betina Stegmann, Nelson Rios e Robert Suetholz cumprem a missão que Mario de Andrade deu a eles e a seus antecessores quando criou o quarteto, em 1935: a de guardar a tradição da música de câmara e oferecê-la a São Paulo.

A de hoje vai ser uma performance de exceção. A marca do Quarteto de Cordas é o intimismo, com atuações em espaços onde o público pode olhar nos olhos dos músicos. Eles fazem concertos em escolas particulares, públicas, teatros, bibliotecas. Seu tamanho reduzido lhes dá essa mobilidade. "Cabemos numa van", gaba-se Rios. Mas lhes dá a sensação de ser vistos como "mascotes" do corpo do Municipal.

"Essa apresentação é uma oportunidade de confraternizar com os amigos do Teatro Municipal. Nosso perfil é mesmo o de concertos privativos, que incluem um comentário meu no final", explica Jaffé. Na sala do quarteto, no terceiro andar, o cheirinho de carpete novo pode esconder as tantas décadas de história. Mas não disfarça a camaradagem entre os músicos, que ensaiam de três a quatro horas por dia. "A gente briga mais musicalmente", esclarece Betina.

Juntos desde 2002, no palco podem parecer uma entidade única. Mas na privacidade da sala de janelões imensos, eles vão revelando suas individualidades. Betina nasceu em Buenos Aires, mas veio para São Paulo com 3 anos. É apaixonada pela gastronomia e pelos parques da cidade. Não se conforma com a poluição. Ela é primeiro violino e a imprescindível essência feminina do grupo, ao qual se incorporou em 1994. Nelson Rios, piracicabano, é o calouro, chegou em 2002. Sorriso franco, o segundo violino é um entusiasta da cidade. Confessa baixinho que gosta da Rua 25 de Março. De fuçar, de encontrar.

O americano Robert é o violoncelo e faz o tipo do mal-humorado espirituoso. Entrou na turma em 1991. Não é tão fã de São Paulo - gosta mesmo de passar os fins de semana em Poços de Caldas com a namorada. E Jaffé, que se juntou ao quarteto em 1985, com seu cabelo de músico de desenho animado, grisalho e vasto, é o filósofo, o falador, a viola. Único paulistano da turma, ama tudo e odeia tudo de São Paulo. Mas faz uma observação com o consentimento de todos: "A cidade tem a qualidade de reunir tribos musicais de todos os tipos".

O quarteto que o diga. Já tocaram, em grupo ou individualmente, com Banda Mantiqueira, Banda Pau-brasil, Chitãozinho & Xororó e "até com o Rádio Táxi", acrescenta Robert. Nas performances às quintas-feiras na Biblioteca Mario de Andrade, interagem com um público tão variado quanto fiel, de donas de casa, sem-teto, intelectuais, estudantes, aposentados. Lembram com assombro da Virada Cultural do ano passado, no Mosteiro de São Bento. "O silêncio que se instalou, com uma plateia tão diversa, foi impressionante", diz Betina.

São uníssonos ao escolher o Quarteto n.º 1, de Osvaldo Lacerda, como a música que representa a metrópole, com acordes que vão da sutil melancolia à sutil euforia. "São Paulo é elaborada, mas também é simples, como essa peça", sintetiza Jaffé.

Guardando seus instrumentos nos estojos, falam de seu grande sonho: a casa nova, no Conservatório Dramático e Musical, que deve ser entregue quando a Praça das Artes ficar pronta. "São Paulo é das únicas cidades do mundo que têm um Quarteto de Cordas oficial, não de empresários. E agora vamos ter também casa própria", diz Jaffé. Até lá, fazem o "open house" de seu lar original, o Teatro Municipal. Bem-vindos.

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