Os cuidados antes de se jogar em um site de oferta

Consumidores adoraram a ideia de compras coletivas, mas há armadilhas para desatentos

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

Sócia e eventualmente telefonista da clínica de estética JoliJolie, a empresária Indianara Giordani atendeu mais de mil ligações desde o dia 5 de outubro. No balcão da clínica, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, Indianara tenta dar conta do incrível retorno de uma promoção de massagem publicada no site de compras coletivas Peixe Urbano. O pacote de três sessões passou de R$ 800 para R$ 97.

"Pelos cálculos deles (Peixe Urbano), 1,8 mil pessoas compraram o cupom", diz ela. Sua clínica tinha capacidade de atender 40 pessoas por dia.

Recém-nascidos no Brasil, já há pelo menos cinco sites nacionais de compras coletivas lidando com ofertas massivas de estética, gastronomia e entretenimento. Se contabilizados os que atuam em praças regionais (isolados em cada Estado), há 250. Em média, são criados dois novos sites por dia.

Neles é possível comprar escova progressiva em um cabeleireiro de grife com 70% de desconto: de R$ 500 por R$ 150. Combinado de sushis e sashimis, com 48 unidades, de R$ 68 por R$ 29,90. Entradas de cinema no Kinoplex, de R$ 20 por R$ 8.

Espécie de colecionadora de cupons de ofertas, a economista Ana Cristina Pereira, de 39 anos, conta que já comprou desde escova progressiva e temporada em spa "até peça de teatro". "Ainda não usei tudo." Em uma mesa da Pizza Bros., ela saboreia com a família (marido e três crianças) uma pizza gigante que custou R$ 15 (o preço normal é R$ 49,90). Diz que ainda não teve surpresas ruins.

Não é sempre assim. A engenheira Sheila Malta, de 26 anos, uma das compradoras da oferta de massagem da JoliJolie, só conseguiu hora para dezembro. "Para saber o tempo que você vai ficar na fila, é só olhar quantas pessoas compraram a promoção."

Críticas. Já existe um ranking de reclamações. O Peixe Urbano está em primeiro lugar. É o maior e mais antigo site do tipo no País, com sete meses de existência e cerca de 1 milhão de frequentadores. "Quanto maior o site, maior o número de queixas. De 8% a 10% dos consumidores reclamam", explica Maurício Vargas, do site www.reclameaqui.com.br. Com 3,5 milhões de visitantes, o Reclameaqui amedronta os sites porque expõe as queixas dos usuários. Consequentemente, o retorno é muito rápido.

Segundo Vargas e o Peixe Urbano, a maior parte das reclamações acontece mais por inexperiência (de ambas as partes) do que por um erro grave. "Muita gente, na afobação, não lê direito o regulamento ou finaliza errado a operação", afirma Letícia Leite, do Peixe Urbano, que diz estar concentrando esforços para deixar as informações o mais claras possível.

Como ainda são novidade, esses bebês cibernéticos nem sempre têm as três pontas da operação afinadas: o site só deveria despejar ofertas na rede depois de testar a capacidade do estabelecimento (clínica, pizzaria, cabeleireiro). Por sua vez, o estabelecimento não pode, na euforia do retorno, negligenciar o atendimento. E o consumidor precisa aprender a respirar fundo antes de se jogar nas pechinchas.

O universitário Mikhail Lorenzo, de 21 anos, se afobou diante da promoção de uma hamburgueria em Santana, na zona norte, que oferecia um combo a R$ 7. Clicou quatro vezes para finalizar a operação - e foi cobrado pelas quatro. "O Grupon prometeu devolver na atual fatura do cartão, mas não veio."

O Grupon afirmou que o estorno aparecerá na próxima fatura. O site se recupera de um início nebuloso no Brasil, quando anunciou uma série de ofertas em estabelecimentos que não existiam. Andrew Mason, CEO da empresa nos Estados Unidos, soltou um e-mail coletivo pedindo desculpas. "Era apenas um teste para ver a recepção dos internautas."

Indianara, da JoliJolie, diz que o Peixe Urbano não avisou exatamente quando a promoção da clínica entraria na rede ("Desde julho eles dizem: "É semana que vem."") e não teve tempo para se preparar. Reconhece que, de qualquer maneira, não tinha estrutura para a demanda. O tsunami de clientes a levou a duplicar as quatro salas em que atendia e a contratar o dobro de funcionários. Mas quem pode reclamar quando se tem um estabelecimento que vai completar um ano em janeiro com tamanho movimento?

EXEMPLOS NACIONAIS

Peixe Urbano

www.peixeurbano.com.br

Lançamento: março de 2010

Serviços mais procurados: gastronomia e estética

Praças no Brasil: 27

Público: Ambos os sexos, mas mulheres compram mais

Imperdível

www.imperdivel.com.br

Lançamento: maio de 2010

Serviços mais procurados: gastronomia e estética

Praças: 30

Público: 50% homens e 50% mulheres

Groupon

www.groupon.com.br

Lançamento: junho de 2010

Serviços mais procurados: gastronomia e estética

Praças: 26

Público: Homens e mulheres, em igual proporção

PRESTE ATENÇÃO...

1.Procure saber exatamente o que está sendo oferecido e em que dias a promoção é válida, para depois não perder a razão em caso de queixa.

2. Uma boa maneira de saber se você vai enfrentar fila é averiguar no próprio site quantas pessoas já compraram a promoção. Dependendo do número, você pode ter de esperar mais de 30 dias para usufruir do cupom da oferta.

3. Se você observar que muita gente comprou a oferta, procure ligar antes para o estabelecimento para saber se é preciso reservar mesa, ou marcar hora.

4. Caso queira efetuar alguma troca ou reclamação e não for atendido pelo SAC do site, comunique sua insatisfação ao www.reclameaqui.com.br. De acordo com os usuários, é a maneira mais rápida de obter retorno.

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