Daniel Teixeira
Daniel Teixeira

Os bastidores do Cirque, onde o show nunca acaba

Instalada em Pinheiros, trupe internacional do 'Varekai' não para de se exercitar nem para dar entrevistas. Confira fotos da apresentação

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2011 | 00h00

Em nove anos, cerca de 6 milhões de pessoas assistiram ao espetáculo Varekai, da trupe canadense Cirque du Soleil. Uma delas, na quarta-feira, foi a estudante Mayara de Souza Lima, de 12 anos, que estava empolgadíssima. "Mas como é que fazem isso? É demais! Não erram nada!", exclamou, na pré-estreia paulistana do show, no Parque Villa-Lobos, zona oeste da capital paulista. É preciso treino, Mayara. E alguns cuidados - muitos, totalmente inesperados. No dia da pré-estreia da nova temporada do Cirque du Soleil, a Expedição Metrópole esquadrinhou os bastidores da trupe para acompanhar os últimos preparativos e conhecer as curiosidades do espetáculo.

Descobriu, por exemplo, que nos dias que antecedem a estreia o apetite do artista aumenta. Em tempo de trabalho intenso, eles consomem 30% a mais que os 70 quilos de carnes - bife magro, frango, salmão - do dia a dia "normal". Saladas e massas também se multiplicam à mesa nas 300 refeições diárias. Tudo isso preparado na cozinha ao lado da tenda principal. "Todos trabalham mais, então, têm mais fome. É natural", comenta o chef, Lee Johnson.

O que não significa, explica ele, que os artistas possam descuidar da forma física. Pendurada ao lado dos pratos principais, há uma lista de alimentos "proibidos" - lá, figuram os embutidos (salame e peperone, nem pensar), saladas com maionese, biscoitos, muffins, sucrilhos açucarados, caramelo, Nutella e batata frita. Bacon. Tudo contraindicado, conforme aponta a lista encabeçada pela imagem de um palhaço bravo. "Se algum atleta ganhar peso, o chef indica à direção artística, que puxa sua orelha", explica a venezuelana Cynthia Clemente, relações-públicas do Cirque.

Os artistas - não importa se é figurante ou astro principal - têm a obrigação de se apresentar à direção de arte pelo menos duas horas antes dos espetáculos. Na quarta-feira, muitos chegaram com cinco horas de antecedência, já concentrados para a pré-estreia. Como quatro acrobatas do número Slippery Surface (Superfície Deslizante), que assistiam ao treino do dia anterior na TV de 42 polegadas.

As acrobacias estavam ótimas, mas a coreografia apresentava erros de sincronia. "Ainda há tempo de corrigir", limitou-se a dizer o técnico ucraniano André Solodar.

A preparação é realizada na Tenda Artística - espécie de antecâmara do espetáculo, onde ficam aparelhos de ginástica e de musculação, trapézio e cama elástica, fisioterapeuta e massagista. Também é ali que ficam os 600 figurinos - chapéus moldados na cabeça de cada artista, perucas, sapatos e fantasias - e a equipe responsável pela manutenção.

Todo dia, alguma roupa arrebenta, ou zíper se rompe. Todo dia, é preciso retocar, com tinta, os sapatos usados em cena. É trabalho para a equipe do figurinista Larry Edwards, composta por cinco costureiras - e cuja maior dor de cabeça é o número Russian Swings (Balanços Russos), em que 14 acrobatas são lançados ao ar sem parar, enfiados em roupas de lycra vermelha totalmente grudadas ao corpo. "Não há zíper que aguente", disse Edwards, coçando a testa.

Sotaque brasileiro. Perto dali, uma trapezista loira se aquece esticada na esteira azul. Ela grita: "Vem cá!" para uma colega - com sotaque do interior de São Paulo, disse as únicas palavras em português até então. Era Michele Ramos, trapezista de 36 anos, um dos três artistas brasileiros, entre os 53 do espetáculo todo. Ginasta desde criança, Michele conheceu o mundo artístico por meio de um bico. "Aos 14 anos, era palhaça em festas infantis", contou, com a batata da perna direita entre os braços - não parou de aquecer nem para dar entrevista. "Depois, entrei para o Grande Circo Popular do Brasil e não larguei mais. Cheguei ao Cirque após umas audições bem rigorosas."

Hospedados em hotéis em Pinheiros, na zona oeste, e no Morumbi, zona sul, atletas e produção têm apenas um dia de folga durante a semana. "Descansamos na segunda-feira", conta Michele, natural de Santos. "No meu caso, estou tranquila: vou aproveitar para visitar os parentes no litoral. Por enquanto, só saí para passear na Avenida Paulista", disse, antes de subir no trapézio, para um último ensaio. À noite, o número foi dos mais aplaudidos pelos 1.200 alunos de escolas da rede pública que assistiram à pré-estreia.

Mudou de lugar. Varekai (que em língua cigana significa "em qualquer lugar" e conta a história de Ícaro, atirado em uma floresta mágica) é o quarto espetáculo do Cirque du Soleil no Brasil desde 2006, quando estreou com Saltimbanco. Neste ano, pela primeira vez, teve de mudar de lugar - mudança leve em todas as tendas, deslocadas 2 metros à direita, na direção da Marginal do Pinheiros. "É que os espaços para as 1.100 estacas da tenda principal já foram utilizados nas outras três exibições. Deslocamos para o lado para manter a firmeza", contou Robert Mackenzie, engenheiro responsável por Varekai.

São cuidados que, no fim, fazem a diferença para o público. "Nunca tinha visto circo assim", decretou, após o espetáculo a estudante Mayara, da 6.ª série do ensino fundamental de uma escola do Grajaú, na zona sul.

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