''Os bairros mais seguros não são os murados''

Artigo[br][br]Arquitetos alertam para a importância de priorizar no planejamento urbano os espaços de convivência entre os cidadãos e ações que valorizem o transporte público

Euclides Oliveira e Dante Furlan, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2010 | 00h00

O Bairro Novo foi resultado de um concurso público de arquitetura, aberto em 2004 a todos os profissionais brasileiros. Localizado em cerca de 878 mil m² da Barra Funda, o projeto está inserido na Operação Urbana Água Branca. Na região predominam terrenos vazios, galpões de depósito, campos de futebol e lotes irregulares, o que facilitaria a desapropriação do local para a construção de um novo bairro - servido por transporte público de qualidade e próximo do centro e das principais rodovias.

A proposta era modificar totalmente a área com um projeto que contemplasse a convivência entre cidadãos, um sistema viário que valorizasse o pedestre, um zoneamento que minimizasse a necessidade do automóvel. As esquinas e calçadas seriam espaços generosos e equipados com mobiliário urbano de qualidade, tão raro na cidade. Tudo para propiciar espaços públicos e privados abertos à diversidade, que, ao contrário de segregarem as classes sociais, promovessem sua coexistência. Está no DNA do projeto a crença de que os bairros mais seguros não são os murados e cheios de seguranças, mas sim aqueles onde as pessoas se apropriam do espaço público.

Na gestão José Serra, o trabalho dos diversos profissionais envolvidos no projeto passou a ser tratado com absoluto desinteresse, restando à região permanecer em sua silenciosa espera do futuro, totalmente à mercê do mercado imobiliário, que certamente será responsável por grandes enclaves fortificados, com intuito de criar condomínios fechados e falsa sensação de segurança.

Desde 2004 não foi realizada nenhuma ação pública importante no local. Para, por exemplo, solucionar a questão caótica do trânsito e o antigo problema de macrodrenagem da área. Como se comportará um novo bairro com 30 a 50 mil novos moradores sem obras importantes da Prefeitura? Qual será o impacto no entorno? O resultado desse modelo de cidade baseado exclusivamente em atender aos interesses do mercado sempre será a negação da rua como espaço de convivência, a necessidade do uso corriqueiro do transporte individual, a formação de um espaço público desconectado e mal utilizado.

DOIS DOS ARQUITETOS RESPONSÁVEIS PELO PROJETO DE REVITALIZAÇÃO DA BARRA FUNDA QUE FOI ABANDONADO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.