Os bailes das antigas ainda têm vez em SP

Clubes da cidade seguem tradição e oferecem de antigas matinês a música até o amanhecer

RODRIGO BRANCATELLI, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2012 | 03h03

Como se estivesse remexendo em antigas fotografias guardadas lá na estante da memória, a historiadora Maria Aparecida Urbano lembra de várias cenas dos carnavais que passou em clubes de São Paulo. As crianças fantasiadas. Os pierrôs. As colombinas. As máscaras. Os adultos nas ruas, esperando o fim das matinês. As marchinhas. "Como eu morava no bairro do Brás, não esqueço do Cine Oberdan, que tinha bailes infantis, matinês, bailes à noite, era superconcorrido. Era uma delícia."

O saudosismo de Maria Aparecida, apesar de parecer apenas uma foto em preto e branco, ainda resiste em São Paulo. Dos cerca de 700 clubes da cidade associados ao Sindicato dos Clubes do Estado de São Paulo (Sindi-Clube), 10% ainda mantêm bailes e matinês. Os bravos sobreviventes, como as festas nos salões do Juventus, do Círculo Militar, do Pinheiros e do Paulistano, preservam todos os ingredientes que garantiam o sucesso dos carnavais passados. Menos o lança-perfume, claro.

"De 1950 a 1980, todos os grandes clubes tinham seus carnavais, era o auge dos bailes", diz Cezar Roberto Leão Granieri, presidente do Sindi-Clube. "O que estou vendo hoje é uma volta. No interior já está acontecendo mais, porque as pessoas estão procurando bailes menores, mais divertidos, ao contrário dos grandes blocos e desfiles."

O clube Juventus é famoso pelo seu carnaval desde a década de 1940 - neste ano, serão quatro noites de folia, nos dias 18, 19, 20 e 21. "No auge, a quadra do Juventus não comportava tanta gente, tanto que um monte de pessoas ficava na rua", diz o presidente do clube, Rodolfo Cetertick. "No começo dos anos 1980, mudamos para o salão nobre, dava 12 mil pessoas em cada baile. Foram alguns dos meus melhores carnavais. Mas os laços foram se perdendo, esse senso do clube como o centro do bairro foi se perdendo. O importante é que tentamos manter essa memória viva todo ano. E sempre enche."

Sem opções. Para a historiadora Maria Aparecida, especialista em carnaval e samba na metrópole, a falta de mais opções de bailes é um reflexo do crescimento da cidade. "Esses carnavais de antigamente estavam intimamente ligados à vida dos bairros", conta ela. "Você ia nos bailes porque sua família estaria lá, seus amigos de infância, o menino que você gostava."

"Nos últimos anos, a festa foi transformada em show, virou mais exclusiva", diz a historiadora. "Mas o que sobrevive é a alegria, essa vontade de se livrar dos problemas, de curtir, de esquecer o estresse e dançar. Enquanto isso sobreviver, seja em um baile, na rua ou no sambódromo, está ótimo."

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