Os andantes

Foi numa tarde, logo depois da Segunda Guerra Mundial. Era um ror de gente, como diziam os antigos. Uma multidão compacta, homens e mulheres, a roupa suja do pó vermelho da estrada. Alguns levavam ao ombro o bastão com a trouxinha amarrada na ponta. Ouvia-se o barulho dos pés descalços pisando o cascalho da estrada de terra de Socorro a Bragança, esmagando os torrões com os pés largos e maltratados de um caboclo de pintura de Cândido Portinari. Era como um barulho de chuva batendo nas folhas da mata. Estávamos, meus primos e eu, sapeando por ali, atirando pedra em passarinho, só para vê-los voar, as asas coloridas dos canários abertas contra o fundo do céu azul. Eles apareceram, de repente, na curva do bairro da Rosa Mendes, vindos das bandas de Minas. Caminhavam em silêncio, cabisbaixos, indiferentes ao que nos encantava na paisagem, como a velha araucária da beira do caminho, o capim santo empoeirado da beira da estrada, soprado pela brisa.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2013 | 02h04

- São andantes, disse um de meus primos, já acostumado com as multidões que vinham dos lados de Bueno Brandão à procura de trabalho nas fazendas de café. Era o tempo da colheita. Indo pela Mostarda, em mais um dia de caminhada, encontrariam trabalho nas fazendas antigas do Amparo.

O café era tratado pelas famílias de colonos residentes nas fazendas, no chamado regime de colonato, que substituiu a escravidão. Por ali, como no bairro da Fazenda Velha, ainda viviam negros libertos pela Lei Áurea, de 13 de maio de 1888. Seu dono, antes de morrer, resolvera legar a fazenda a seus antigos escravos. As famílias de colonos residentes nas fazendas nunca foram suficientes para fazer a colheita do café no tempo certo.

Desde antes do fim do cativeiro, trabalhadores avulsos eram recrutados em Minas e no Nordeste para esse trabalho temporário. Multidões de trabalhadores pobres subiam o Rio São Francisco e de lá, a pé, iam para regiões como Ribeirão Preto, Franca e Casa Branca para colher os minguados mil-réis que lhes permitiam sobreviver na entressafra de sua pequena lavoura na volta para casa. Eu estava vendo uma das últimas multidões nômades de trabalhadores de roça em busca de trabalho.

Foi a primeira vez que ouvi a palavra "andante". Aquilo tudo está hoje a uma hora de carro de São Paulo. É chamado de "perto". Naquele tempo, era chamado de "longe", levava quase um dia inteiro para se chegar lá de trem e de jardineira.

Lembrança. Alguns anos depois, no programa de Paulo Bomfim e de Fernando Soares, A Hora do Livro, na Rádio Gazeta, Judas Isgorogota, o poeta alagoano residente em São Paulo, me faria lembrar vivamente daquela cena com os versos de um poema: "Vocês não queiram mal aos que vêm de longe, rasgados, famintos de dar compaixão... os olhos na terra... os pés doloridos... pisando saudades calcadas no chão..."

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